quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Assustador, medonho, horroroso!!!



Até lá, se não rolar, um feliz Natal e um maravilhoso Ano Novo para nossos queridos leitores.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Pensem, por favor

Minhas profundas divergências ideológicas com a Folha de S.Paulo abundam até para a critica de cinema. Não é a primeira vez. O crítico Inácio Araújo não gostou de “Rebobine, por favor”, de Michel Gondry, segundo ele de um humor sem brilho. Não, não é. Não esperem apenas boas piadas, embora existam. O filme tem uma bela poesia e traz uma reflexão interessante para todos, paradoxalmente feita pela própria indústria cultural: o cinema tem agora um novo desafio com a digitalização e a internet. Como será esse novo modelo de negócio? O que amplas massas querem e estão dizendo a esse monopólio? Basta pensar. Sugiro que leiam Felipe Macedo, no Diplô. Segundo ele, o cinema mudou pouco até o advento das tecnologias digitais. O modelo básico de produção, de circulação e de exibição permaneceu o mesmo. Agora há um paradigma novo, com novos processos onde até a difusão já não precisa ser física. E acrescenta que este novo desafio tem muitas semelhanças com a época do surgimento do cinema. Quando, por duas décadas, muito foi tentado e discutido para formatar o cinema como o conhecemos hoje.

É o que a comédia consegue provocar. Elroy Fletcher (Danny Glover) é dono de uma decadente locadora de blockbusters. Vive pressionado pela prefeitura para mudar ou adaptar seu prédio a novas posturas. Sem dinheiro, faz uma viagem para pensar e deixa seu negócio nas mãos do atolado empregado Mike (Mos Def) e inadvertidamente na de seu amigo mecânico Jerry (Jack Black). A primeira e decisiva trapalhada de Jerry é desmagnetizar todo o arquivo de fitas VHS. Em pânico, a dupla resolve refilmar cada fita, conforme sua demanda. São os melhores momentos, onde títulos notórios do cinemão americano são recriados nos mais toscos e criativos recursos. Um exemplo: descobrem que na antiquada câmera há um botão para a imagem ficar em negativo, o que poderia sugerir a filmagem à noite. Mas como os atores ficavam irreconhecíveis, xerocam seus rostos em negativo para serem usados como máscaras. O resultado é hilário.

O negócio bomba quando a comunidade local descobre a nova arte da dupla. E de meros espectadores passam para participantes ativos nas produções, como técnicos e atores. Uma ótima metáfora com a nova geração YouTube, onde alguns toscos filmes são hoje mais vistos do que muitas produções da indústria. Quando sabemos que no Brasil mais de 60% dos jovens entre 15 e 29 anos nunca foram ao cinema e 92% dos municípios não têm sequer uma sala para exibição, o filme da indústria americana tem muito mais a dizer além das piadas.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

O que vi no Roda Viva

Não foi muito diferente do que imaginava. Os entrevistadores do Roda Viva levantaram a bola para Gilmar Mendes fazer seu joguinho, repleto de dissimulações, diversionismos e empáfia. Não me impressionei com Eliane Catanhêde, como hoje leio em alguns comentários em blogs. A jornalista da febre amarela fez pose para a foto. A previsibilidade foi antecipada ontem em post do Rodrigo Vianna. Bem sacado, lembrou de quando Brizola esteve no programa, os entrevistadores eram claramente seus inimigos. Um deles, jornalista do Estadão, de notória vocação reacionária, provocou Brizola com uma antiga lenda sobre dinheiro de Cuba para a guerrilha, supostamente embolsada por ele, o que motivou seu apelido de “El Raton” dado por Fidel. O resultado foi antológico. Brizola virou o jogo e chamou o entrevistador diversas vezes de Raton, que a cada momento mais ficava parecido com um rato, acuado na sua maldade.

Gilmar teve vida fácil. E saiu pela tangente nos pouquíssimos momentos de perguntas mais constrangedoras. Indagado sobre os vários processos a seu irmão, em Diamantino (MT), respondeu que eles não existem por não terem chegado à primeira instância, tal questionamento só havia por parte de uma “revista desqualificada”. Não levou em conta que em sua terra não existe estado de direito. A justiça é feita à bala, tal como a que matou a jovem Andréa Paula Pedroso Wonsoski, que fazia oposição a seu irmão. Ninguém ousou questionar, defender o sério jornalismo da Carta Capital, nada a acrescentar. E foi possível ouvir risinhos dos entrevistadores ao fundo.

É a cara de nossa elite, ainda com os dois pés na casa grande. Escárnio com o andar de baixo em caricatos momentos orwellianos, quando falam de “jornalistas de aluguel”. Não, não são os que recebem gratificações de Dantas, que estão com seus nomes arrolados nas investigações da Satiagraha. Não. Segundo Mendes são os blogueiros, que existem por patrocínios obscuros.

É muita canalhice para um dia só.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

E hoje na TV Cultura...



Atualizando: Na pergunta de telespectador sobre as acusações sobre o irmão de Gilmar, a resposta foi escrota: se não chegaram à primeira instância, elas não existem. Simples, disse. E segundo ele representam a falta de credibilidade da revista que fez a reportagem. Alguns risos dos presentes foram ouvidos. Interessante, não leva em conta que lá naquele rincão a justiça é mais embaixo, resolvem pendengas à bala. Tal como as que mataram a jovem Andréa Paula Pedroso Wonsoski.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Carta aberta aos pichadores do Brasil



Meus jovens, não façam isso. Vejam o exemplo de Caroline Pivetta da Mota. Ela, junto com outros pichadores, fez uma intervenção em sala vazia da caduca Bienal de São Paulo. Imaginava ali, em ato de rebeldia, poder expressar seus sentimentos artísticos, inclusive com um enorme “Fora Serra”. Tal obra não foi bem recebida pelo curador da Bienal, que acha que rebeldia não mais combina com arte. Para ele, esse desvio terminou com Marcel Duchamp, quando em 1917 expôs um urinol em salão, denunciando o fetiche da mercadoria na arte. O fetiche ganhou, hoje o urinol vale 3 milhões de euros.

Caroline sofre agora nas mãos da severa justiça brasileira. Está presa há mais de 50 dias e o pedido de hábeas corpus, entrado no último dia 5, até agora não foi julgado. Vejam só a lição. Se a arte de vocês fosse voltada ao uso de informações privilegiadas para obter vantagens econômicas, como Daniel Dantas praticou no plano Collor, ou ao se locupletar no processo de privatização das telefônicas, tentado subornar um delegado da polícia federal, teriam conseguido um hábeas corpus em 24 horas diretamente do presidente do Supremo Tribunal Federal.

Entendam as diferenças (e minha ironia). Pensem nisso e façam melhores escolhas artísticas.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Arquiteto detona a Cidade da Dança de Serra



José Serra tem no atual prefeito carioca um modelo. Cesar Maia, do DEM, vai deixar aos cariocas uma péssima herança e uma obra inacabada que desde seu projeto inicial, que custaria R$ 80 milhões, foi motivo de forte polêmica: a Cidade da Música, agora já custando quase R$ 500 milhões aos cofres públicos, não tem ainda um projeto claro de ocupação, recebe críticas variadas da sociedade, músicos reclamam da falta de prioridade para melhorar o que já existe, pedido de CPI e ação no Tribunal de Contas do Município. Em São Paulo, Serra tenta algo semelhante com a sua “Cidade da Dança”, aqui já comentado pelo fato de custar inicialmente 6 Aerolulas.

A mídia paulista, notoriamente serrista, cobre o assunto burocraticamente. Nada comenta sobre a oposição ao projeto. Ela existe e em parte já está manifestada no próprio site do Sindicato dos Arquitetos de São Paulo. Destaco a opinião de Euclides Oliveira na caixa de comentários da notícia, publicada pelo sindicato:

Meu nome é Euclides Oliveira e exerço a profissão de arquiteto há 39 anos aqui em Sampa, e gostaria de deixar registrado no SASP minha revolta pela contratação de um escritório do "star-system" arquitetônico internacional, sem concorrência.

Os fatos

1 - O governador de São Paulo que contratou este escritório está em campanha aberta para a Presidência da República e pretende gastar 300 milhões de reais (que já sabemos que se transformarão, durante a obra, em 600 ou 700 milhões) visando um já manjado "Efeito Bilbao", em um estado com enormes carências na área habitacional, educacional, de saúde, fundiária, etc. E pagar ao Herzog & de Meuron 25 milhões de reais enquanto que a FDE, por exemplo, paga cerca de 15 mil reais por projeto de escola aos arquitetos tupiniquins, não deixa de ser uma afronta à nossa classe.

2 - O Secretário da Cultura, João Sayad, é um banqueiro (ex?) e político, que ajudou a ferrar o Brasil lá atrás, no plano cruzado do Sarney, além de, quando dono do banco SRL S.A., ter participado ativamente da privatização das Cias. de eletricidade e do Banespa. Só no Brasil mesmo: cultura, artes plásticas, bienais, ficam na mão de banqueiros e políticos profissionais.

3 - Para estar no "star system" internacional não é necessário muito talento arquitetônico, mas sim carisma, ambição social e uma boa assessoria de imprensa. O arquiteto catalão Ricardo Bofill, membro deste "jet-set", disse certa vez que almejava a fama, mas não a do tipo que tiveram Le Corbusier e Walter Groupious, mas sim como a dos Beatles; já Phillip Johnson, ícone maior do estrelismo arquitetônico certa vez respondeu candidamente a um interlocutor que lhe perguntava o porquê de uma solução inusitada: "because I am a bad architect", explicou. Pritzker por Pritzker prefiro mil vezes o Paulo Mendes da Rocha do que o de Meuron.

4 - Os estudantes de arquitetura devem estar indignados; por que os fazem estudar arquitetura brasileira, arte brasileira, cultura brasileira, se no final das contas contratam um escritório suíço cujos titulares mal devem saber onde fica o Brasil e sua capital, Buenos Aires.

5 - Podemos impedir esta barbaridade sim; no Rio de Janeiro os arquitetos foram a luta contra a pretensão do César Maia de contratar o Jean-Nouvel (outro "pop-star" da arquitetura) para construir o Guggenheim-Rio e venceram a batalha.
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Vamos cobrar de nossos jornalistas da mídia oficial o seu dever de casa, que ouçam outros arquitetos sobre o assunto e ofereçam a seus leitores o necessário debate. Afinal, eles pagarão de seus bolsos a conta, precisam de informações. Ou será que com a atual crise da mídia já está em falta esta mercadoria?

Laerte Braga sobre Cesare Battisti

Neste blog já me manifestei pela liberdade e asilo a Cesare Battisti, ex-militante de grupo de esquerda italiano, que está preso no Brasil desde março de 2007, com pedido de extradição do governo italiano.

Hoje, recebi por e-mail artigo do jornalista Laerte Braga, que também defende o mesmo ponto de vista e aborda vários aspectos desta prisão. Vale a leitura:



CESARE BATTISTI


Laerte Braga


Um vídeo mostra o primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi limpando o nariz com o dedo, contemplando o peloto retirado e em seguida olhando para os lados. Estava tentando perceber se alguém olhava diretamente para ele. Como achasse que não, colocou o peloto na boca e engoliu-o com o cafezinho*.

Berlusconi é o todo poderoso governante da Itália, dono da equipe da Milan, banqueiro, empresário, reedição contemporânea de Benito Mussolini. E asqueroso. O fato narrado no primeiro parágrafo embora sugira apenas algo nojento é bem mais que isso, é conseqüência de um desvio de personalidade, digamos assim, traço revelador de um caráter perverso.

O simples fato de ser banqueiro já mostra a natureza do seu caráter. Banqueiros não têm idéia que existam outros, tão somente acreditam num bando de dependentes de seu dinheiro. Os explorados. Que, por sua vez, não percebem que o dinheiro dos banqueiros é deles explorados. Banqueiros são saqueadores e quando governantes ampliam a área do saque.

O governo da Itália com base em premissas falsas pediu a extradição do escritor Cesare Battisti, preso faz quase dois anos no Brasil. Battisti é acusado de “terrorismo” por ter pertencido a um grupo de luta armada na Itália. Da prática de “atentados” contra instituições, próprios e cidadãos italianos.

Um dos integrantes do grupo, quando preso, negociou penas menores e vantagens no seu processo atribuindo a culpa dos atos de guerra a Battisti. No caso específico quatro “homicídios”.

O escritor, que havia abandonado o grupo por divergências políticas ficou exilado na França durante o período em que o socialista François Mitterand foi presidente daquele país e em seguida veio para o Brasil. Os governos franceses à direita e que sucederam Mitterand pretendiam entregá-lo à “justiça” italiana, onde está condenado, como conseqüência da delação de um antigo companheiro, a prisão perpétua.

Há indícios, vestígios, que o pedido de extradição de Battisti feito pelo governo da Itália tenha sido negociado com o governo do Brasil em troca de Salvatore Cacciola. O banqueiro foi preso no principado de Mônaco onde passava um fim de semana e num processo longo e demorado foi extraditado para o Brasil. Cacciola havia passado outros fins de semana em Mônaco e nunca fora importunado pelas autoridades do principado. Um dos pilares do governo de Mônaco é acolher indistintamente todos os milionários que lá aportam sem perguntar como ficaram milionários, o que fazem, ou o que fizeram. É uma espécie de oásis para esse tipo de criminoso.

Cacciola, nas vezes anteriores que lá esteve, foi tratado como cidadão de primeira categoria.

Se o acordo é vero não sei, mas que os fatos apontam na direção de algum acordo isso apontam.

Onde há fumaça há fogo.

O Conselho Nacional de Refugiados (CONARE) rejeitou em 28 de novembro o pedido de refúgio político feito por Battisti através de seus advogados. Acusado de pertencer ao grupo Proletários Armados para o Comunismo, Battisti foi condenado à revelia por quatro homicídios.

A decisão do CONARE não foi unânime, embora não tenham sido dados detalhes. Mania das autoridades de um modo geral em quase todos os países do mundo de se eximirem de responsabilidades diante de fatos ou injustiças como a decisão do Conselho.

A sorte de Battisti está em mãos do ministro da Justiça Tarso Genro. Há um recurso a ser apreciado pelo ministro que pode conceder ao escritor a condição de refugiado. Caso contrário Battisti terá o processo de extradição julgado pelo stf (antigo supremo tribunal federal hoje dantas &e dantas s/a) e se for julgado procedente o pedido do governo italiano Battisti será extraditado.

No Brasil não existe a prisão perpétua. Uma das condições para que Battisti possa ser extraditado será um compromisso do governo italiano para que o exilado não seja condenado a pena superior a 30 anos. Na prática prisão perpétua. Battisti tem 53 anos e sairia da cadeia com 83.

Os supostos crimes cometidos por Battisti foram julgados pela justiça comum italiana. Não foram, como o são, considerados crimes políticos.

Já não existe mais o amparo para estrangeiros casados com mulher brasileira, ou pai de filhos brasileiros como condição para que sejam negados pedidos de extradição, como aconteceu com o célebre Ronald Bigs, assaltante do trem pagador inglês.

É da tradição do Brasil abrigar exilados políticos dos mais variados matizes ideológicos. Foi assim com George Bidault, ex-primeiro ministro francês e que aqui se refugiou quando De Gaulle assumiu o governo e decidiu conceder a independência à Argélia. Uma guerra civil que se prolongava há anos e arrasava, em todos os sentidos, a França. Bidault foi contra a política de De Gaulle e fez parte de uma organização formada por militares e civis de extrema direita que se opunha às determinações e às políticas de Charles De Gaulle.

Com a revolução dos cravos em Portugal o ex-primeiro Marcelo Caetano, de extrema-direita, buscou asilo no Brasil e foi acolhido, a despeito dos crimes cometidos pela ditadura salazarista, como refugiado político.

Cito dois exemplos, existem vários.

Uma coisa é abrigar mafiosos e criminosos comuns. Outra coisa é entregar à sanha de um governo fascista como o de Berlusconi, um refugiado político lato senso. Condenado pela justiça comum por supostos crimes cometidos entre 1977 e 1979.

Não é da tradição brasileira (ressalvado o período fascista de Vargas e a ditadura militar) ignorar pedidos de asilo como o feito por Battisti, dar-lhe a condição de refugiado político.

O fato de não ter havido unanimidade na votação do Conselho Nacional de Refugiados (CONARE) já sugere que, no mínimo, independente de acordo ou não, existem os que pensam contra a maioria dos membros daquele conselho.

O governo brasileiro recentemente, por decisão do judiciário, entregou o traficante Abadia ao governo dos Estados Unidos. E até essa foi uma decisão complicada, na prática, se bem pesada, de subserviência, característica distinta da tradição pautada no direito internacional, ou na fumaça de bom direito, como gostam de dizer juristas.

Abadia cometeu vários crimes, por anos seguidos, no Brasil e antes de qualquer extradição deveria ter sido submetido a julgamento aqui, cumprido pena aqui, para depois então ser extraditado e prioritariamente ao seu país de origem, a Colômbia. Muitos especialistas entenderam assim.

Causou estranheza a pressa com que as autoridades brasileiras cederam às norte-americanas. Não é novidade esse tipo de concessão, em qualquer área, mas foi estranha a pressa.

É fundamental resgatar valores e princípios de solidariedade e justiça dos brasileiros a partir do Estado brasileiro. Do mínimo que resta de Estado como instituição pública, longe de interesses privados ou de políticas mesquinhas.

O ministro da Justiça Tarso Genro tem em mãos a caneta que pode devolver ao Estado parte desses valores e princípios concedendo a Cesare Battisti a condição de refugiado político.

Não é um ato humanitário tão somente, diante das perspectivas sinistras no caso da extradição. É um ato de reafirmação da soberania do Brasil calcada em valores universais de direitos humanos.

* O arquivo mostrando o comportamento do primeiro-ministro Berlusconi não foi carregado neste artigo, mas está à disposição de quem o quiser.


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Bem, o Laerte Braga é um cavaleiro, teve pudores em mostrar tamanho exemplo de depravação. Como sou menos educado e acho que o povo precisa olhar a cara e os atos imundos das classes dominantes, mostro aqui.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

A volta da Tribuna da Imprensa

A Tribuna da Imprensa volta às bancas nesta quinta-feira. Segundo Hélio Fernandes, temporariamente será semanal, diz a nota do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro:

A edição impressa da Tribuna da Imprensa volta às ruas amanhã, pela primeira vez, desde que teve sua circulação suspensa no último dia 2. O jornalista Helio Fernandes disse que a partir de agora, temporariamente, a Tribuna terá distribuição semanal, sempre na quinta ou na sexta-feira. “O jornal não pode morrer”, destacou.

Nesta quarta-feira, em Brasília, o senador Geraldo Mesquita Júnior (PMDB-AC) sugeriu que os senadores Pedro Simon (PMDB-RS) e Mão Santa (PMDB-PI) apresentem requerimento para realização de uma audiência pública sobre o fechamento da Tribuna. Para Mesquita Jr., que presidia a sessão, o periódico tem “uma importância histórica” e os motivos da interrupção de sua circulação precisam ser discutidos.

Os senadores Mão Santa e Simon tinham acabado de criticar, em pronunciamentos na tribuna, a suspensão da circulação do jornal, ocasionada por dois motivos: problemas de ordem financeira e em protesto contra o ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal (STF), que há dois anos analisa um processo da Tribuna da Imprensa contra a União, por danos materiais.

Fernandes disse que está otimista com as declarações de solidariedade que recebe dos representantes do Congresso Nacional e da Assembléia Legislativa do estado do Rio, além das pessoas que o encontram e cumprimentam na rua. “A recepção é magnífica”, acentuou. A edição eletrônica do jornal pela Internet será mantida e atualizada diariamente, com a ressalva de estar momentamente com o seu conteúdo reduzido.

No pronunciamento desta quarta-feira, Mão Santa disse que anunciava "com tristeza" a interrupção da circulação do jornal. Ele destacou a "beleza histórica" do periódico, que "surgiu para acabar com a ditadura (de Getúlio) Vargas e enfrentou a (ditadura) militar".

Pedro Simon pediu que fosse transcrita nos anais do Senado a entrevista concedida por Helio Fernandes ao jornal Zero Hora, de Porto Alegre, na qual ele diz que, caso a Justiça atendesse a sua demanda referente à indenização, a Tribuna teria recursos para voltar à normalidade.

Os profissionais da Tribuna da Imprensa, que continuam mantendo o vínculo empregatício com a empresa, foram dispensados no dia 1º dezembro com a promessa de voltarem ao trabalho tão logo o jornal receba a indenização referente à ação que tramita no STF.


O que chama minha atenção é que entre a briga por uma melhor gestão, as devidas cobranças ao STF, a corda arrebenta do lado dos mais fracos: os trabalhadores da empresa, que estão sem receber salários.

Botando o PIB na mesa


A charge é um remix de outra, de 24 de abril último. O que posso fazer se a realidade teima em se copiar?

Quem vai ouvir o grande Evanildo Bechara?

Ontem estava me preparando para escrever sobre a decisão do TJ do Rio de Janeiro que condenou Daniel Dantas a pagar R$ 100 mil à juíza Márcia Cunha por danos morais. Mas, o tempo curto me fez adiar o post. Escreveria sobre o grande júbilo que sinto pela justiça feita. Márcia Cunha foi barbaramente perseguida. Lembraria do que esse blog falou a respeito, publicando a vergonhosa entrevista feita pela jornalista Janaína Leite, onde a juíza foi acuada por perguntas do interesse de Dantas. A justiça foi feita e as palavras do juiz foram severas:

"salta aos olhos (...) a forma vil, ardilosa e perseguitiva" usada para atacar a juíza e atingir sua "honra, reputação e conceito profissional".

Hoje, li algo no blog do Nassif que me deixou curiosíssimo. Evanildo Bechara, famoso lingüista, autor de inúmeras obras de gramática que freqüentaram nossos estudos, foi consultado para receber R$ 30 mil por um parecer favorável a Dantas, apenas dizendo que a sentença da juíza não era dela, o que recusou. Tal surrealismo já era conhecido, e coube ao “imortal” Antonio Olintho aceitar tal encomenda, aparentemente com um desconto no valor do agrado. O que fica é a minha enorme curiosidade para ouvir as precisas palavras do nosso grande gramático sobre o episódio. Que mídia temos para ouvi-lo?

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

As gracinhas de Serra

O que seria da oposição sem a bela ajuda da mídia? Na Folha de hoje há um claro exemplo de como a desinformação é usada para confundir e ajudar o grupo que está com saudades do butim:


REAÇÃO

Partidos de oposição dizem que PT é culpado pela crise econômica

Os presidentes do PSDB, DEM e PPS criticaram ontem a cúpula do PT, que culpou a oposição pela crise. Em nota, Rodrigo Maia (DEM), Sérgio Guerra (PSDB) e Roberto Freire (PPS) disseram que a culpa pela atual situação é do PT, que se mostra incapaz de apresentar um programa contra a crise. O governador José Serra (SP) foi irônico: "O PSDB saiu do governo em 2002. Então tem um poder extraordinário".


Como a maioria dos leitores de um jornal não acompanha as notícias todos os dias, fica fácil manipular para que entendam algo diferente. Quem leu hoje a nota vai achar que há uma discussão sobre gestão. E é este o objetivo da oposição, a de responsabilizar o atual governo por qualquer efeito da crise. Mas o que disse a cúpula do PT, que motivou esta reação e que a Folha não reproduz?

Em seminário no domingo, o secretário nacional de comunicação do PT, Gleber Nalme, disse:

“A crise tem pai e mãe. Ela é uma crise do modelo neoliberal, daqueles que no Brasil defenderam as idéias de desregulamentação do Estado, ou seja, o PSDB e o DEM. E esse debate o PT vai fazer. Os neoliberais perderam”.

Certíssimo. Isso se chama discussão política. A atual crise representa o fim de um modelo, repetido e reproduzido em quantidade pela mídia ao longo de muitos anos. Perderam. A vai ser muito difícil juntarem os pedaços de seus velhos discursos para emendar um novo. Daí, vem um José Serra fazer gracinha como se não tivesse entendido a questão.

E os Aerolulas de Serra, nada?

Vocês lembram da mídia fazendo campanha contra o novo avião presidencial de Lula? Virou o Aerolula. Uma chacota contra a decisão de abandonar um velho avião obsoleto e notoriamente perigoso por algo mais moderno e útil, nas inúmeras e necessárias viagens presidenciais. Diziam que era um gasto altíssimo e desnecessário. Perderam o gás depois, inventando novas campanhas. Pois... Pelo preço de seis Aerolulas o governo José Serra decidiu, sem concorrência, fazer uma sede para a Companhia de Dança de São Paulo. Foi contratada a caríssima equipe de arquitetos suíços que fez o Estádio Olímpico de Pequim, o Ninho de Pássaro. Tal fato motivou uma intensa discussão entre arquitetos tupiniquins, intrigados com o valor, com a opção pelos suíços e com a real necessidade de tal obra, em detrimento de outras.

Quantas reportagens foram feitas para reproduzir esta discussão? Nenhuma. Fiquei sabendo do assunto em uma nota na última Carta Capital e pesquisando e descobrindo que foi post no blog do Favre.

Um belo exemplo da “imparcialidade” de nossa mídia.

A crise da mídia (2)

Notícia desta segunda. O grupo Tribune, que controla os tradicionais Los Angeles Times, Chicago Tribune, The Baltimore Sun, Orlando Sentinel e mais um penca de jornais, além de um time de beisebol, o Chicago Cubs, pediu concordata. Provavelmente é o início da falência de um modelo, algo que também tem ou terá em breve reflexos no Brasil. Junto veio a informação de que o New York Times vai hipotecar sua nova e suntuosa sede.

Foi explosiva a combinação de empresas familiares sendo obrigadas a rápido processo de troca de gestão, pressionadas por radicais mudanças tecnológicas com a suicida perda de credibilidade depois de oito anos de era Bush, onde foram partícipes do pior da política. O resultado é este desprazer que sentem em vivenciar algo parecido com o gosto de derrota que a indústria fonográfica sentiu com o mundo digital. Novos leitores, e alguns tradicionais, preferem hoje as variadas notícias e seus comentários na internet. Perderam o hábito do jornal no café da manhã e desprezam as esvaziadas e comprometidas coberturas jornalísticas na TV. Acham melhor escolher o que ver no YouTube.

O capitalismo está sempre arquitetando saídas, uma cura. Mas não pára de inventar novos venenos.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Sintomas da guerra perdida

Vou confessar uma perversão: adoro ver os meus inimigos estrebucharem na derrota. É o que assisto quando Diogo Mairnardi dedica um podcast para tentar desqualificar blogueiros. Êta guerra gostosa. “Velhos jornalistas de terceira linha, com a carreira definitivamente acabada”, diz sobre eles. Ah, quanta alegria. A voz da senzala ofusca no Olimpo as belas-letras dos escolhidos de Mercúrio. Quem diria? A seção de cartas ganhou importância neste mundo novo, para desespero da terceira linha do jornalismo, que ainda resiste em suas arcaicas trincheiras.


Talvez não seja só isso. Perceba que apenas dominar a língua, essa velha arma das classes dominantes para se colocar em distância ao gentio, não garante todo o seu poder. É um repertório básico, pode ser conseguido com um bom curso fundamental. Nem precisa de mestrado, doutorado. Carlos Drummond de Andrade o fez, formando-se depois em farmácia para agradar aos pais. Depois ingressou no serviço público. Seria possivelmente hoje apenas mais um blogueiro para atormentá-lo. Ainda bem que existiu um Correio da Manhã e um Jornal do Brasil para divulgar aquela profusão de belas palavras, concatenadas para expressar uma incontida ligação com a vida, nosso povo, suas alegrias e angústias.

Algo onde vejo que a obra mainardiana nunca terá reconhecimento. O tempo é cruel com o conteúdo formado apenas por clichês preconceituosos. Se ao menos existisse aí uma bela forma...

Sinto, Mainardi, você perdeu. E estou brindando por esta alegria. É a guerra, entenda.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Chora Serra!

Crise, que crise?

Ok, ok. O Lula disse que estávamos blindados. Que seria uma marola a crise. A imprensa certamente conhece, e usa sem parcimônia uma das máximas - quantas há, aliás? - da economia que as profecias se auto-cumprem. Caligaris hoje fala de novo sobre a confiança que temos que ter na confiança alheia para que a "economia" funcione. Li artigos e mais artigos sobre como essa lógica funcionaria. Em Copacabana, isso seria chamado de maria vai com as outras.
Vamos aos fatos. Miriam Porcao et alli devem saber mais que eu sobre o tal funcionamento do mercado. Mas não. Tampouco sabem sobre lógica, mas conhecem muito bem como acionar o pânico para que esse se dissemine. Ela e outros vão, todos os dias, acreditando que a crise chegou, vai piorar e que qualquer ação anti crise que seja minimamente otimista deve ser evitada como o diabo foge da cruz. E cá estamos, com medo da crise que os banqueiros bonzinhos - oxímoro lido no Veríssimo de hoje - criaram, de fato exista.

Mas já que estamos tratando de crenças, eu prefiro crer que quem anda com fé vai, que a fé não costuma faiá :)

. ei, sei que o bicho tá pegando, mas precisamos repetir tal como mantra (sic)?
. esses caras estão ganhando com isso. Não precisa pensar muito pra sacar.

Grande Hélio Fernandes!

"A coletividade ganha mais com 10 mil exemplares de BRAVURA, do que com 282.182 exemplares de COVARDIA."


Na coluna de Hélio Fernandes, agora apenas na internet, comparando seu jornal fechado a Folha de S.Paulo, que, entre tantos sintomas de depravação, usou sua frota de carros para transportar presos políticos para serem torturados.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

A crise da mídia

A sentença do juiz De Sanctis marca mais um capítulo das infâmias recentes do cartel midiático brasileiro. A imprensa foi participante ativa do massacre ao juiz, junto a parlamentares e ao presidente do STF. A opinião pública saiu majoritariamente com a alma lavada. Não entrou no jogo e comemorou a decisão. Esta nova derrota, que soma às variadas tentativas frustradas de organizar oposição ao atual governo, leva às inevitáveis reflexões sobre o papel da mídia, sua atual força e sua notória crise. E são nestas dificuldades econômicas onde há algo a ser pensado, que talvez ajude a melhor explicar tantos desastres.

Vale agora a releitura de um texto de março de 2004 do professor Guastavo Gindre, membro do Comitê Gestor da Internet do Brasil. Nele, um bom relato das dificuldades da mídia para entender a mudança de seus negócios, os erros praticados e a tentativa de pressionar o Estado para salvar suas empresas. Em um resumo da ópera: durante o governo FHC, certamente alertados por seus consultores, as empresas de comunicação entenderam que no breve futuro celulares falariam com as TVs, os jornais em papel perderiam força, a internet chegaria a muitos e tudo iria mudar em sua forma de fazer negócios. Convergência era palavra nova. Tomaram várias decisões. A Folha criou o UOL, em parceria com a Abril, depois com a Portugal Telecom. O Estado de São Paulo investiu na BCP, de telefonia celular, assim como a RBS se associou à Telefônica de Espanha. A Abril investiu em provedor de acesso, portais temáticos, canais de televisão paga, etc. A Globo diversificou indo da eletrônica (NEC) à transmissão de dados (Vicom), passando por pager, TV a cabo e Internet. Neste mundo novo, nem tudo deu certo, com micos notórios, que foram somados às dívidas anteriores, em dólar, resultado de outros erros de avaliação. Talvez tenham lido e acreditado na Miriam Leitão, prata da casa, paciência.

O resultado foi um rombo de R$ 10 bilhões no setor, onde a Globo detinha 60%. Isto em um cenário de perda de publicidade e queda de circulação de seus impressos. Para se ter uma idéia do estrago, em abril de 2007 o ex-ombudsman da Folha, Marcelo Beraba, em entrevista ao Observatório da Imprensa, reproduzida no Vermelho, dizia: “Os três grandes jornais perderam nos últimos cinco anos aproximadamente um terço da circulação. Isso equivale a dizer que um deles já teria acabado”.

Mas, para efetivamente entender o ponto: assim que o governo Lula tomou posse, os representantes do setor formalizaram em Brasília um pedido de ajuda. Chegaram à época comentar algo em torno de R$ 2 bilhões, dinheiro via BNDES. O que nunca aconteceu. O resto da história fica agora melhor conhecido.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

O fechamento da Tribuna da Imprensa

É uma pena, sou leitor diário do Helio Fernandes, o acho mais interessante que uma penca dos colunistas de nossa mídia. Mas o fato é que o fechamento do jornal era esperado há muito. A Tribuna é o diário carioca com o maior índice de ações trabalhistas, mesmo com uma redação menor que a de seus concorrentes. Há dívidas diversas com fornecedores. Segundo o sindicato dos jornalistas do Rio, a empresa sempre foi mal administrada, vivendo apenas pelo personalismo de seu dono. O que Hélio agora deseja é receber uma indenização pelas perseguições durante a ditadura, recebendo um troco para pagar fornecedores e possivelmente a alguns funcionários. Dificilmente resolvendo em definitivo o problema do jornal. O que é uma pena. O Rio já teve diversos diários, alguns extremamente combativos. O fechamento da Tribuna parece enterrar de vez a possibilidade de haver alguma opção ao cartel midiático.

Ps: A empresa declarou que pretende continuar na internet. Conseguindo, será talvez um forte sinal da chegada do futuro na mídia brasileira.

Hélio Luz e a nova senzala

Como fazer tese é de graça, faço uma agora: a atividade policial leva o sujeito a viver algumas das mais agudas contradições da sociedade. Ele vê em seu dia-a-dia os mecanismos do poder, da exploração, nossas mais abjetas mazelas. Quando conseguem se livrar das inúmeras atrações da cooptação à bandidagem, se transformam em cidadãos pensantes de primeira linha. É o motivo da longa admiração que tenho pelo ex-delegado e ex-deputado Hélio Luz. Há 8 anos se viu na mira dos holofotes da mídia, que tentava sua desqualificação o envolvendo em negócios com a máfia das quentinhas para presidiários no Rio de Janeiro, quando era delegado em 1990. O objetivo era claro, semelhante ao que agora fazem com o delegado Protógenes e Paulo Lacerda: enfraquecer suas inúmeras e firmes denúncias ao funcionamento do esquema podre da polícia, que envolvia políticos e onde a mídia tinha suas ações preferenciais. A acusação pouco resistiu, sumindo rapidamente do noticiário. Principalmente depois que o então deputado contra-atacou com pedido de CPI para mostrar suas próprias contas e a de todos os funcionários que se relacionaram com a empresa de quentinhas.

Sua capacidade de análise é grande. Sua experiência é enorme. E consegue pensar politicamente, denunciando como a corrupção está relacionada ao próprio sistema capitalista, o que transforma suas críticas em algo muito mais contundente. Hoje, afastado da política e da atividade policial, por incompatibilidades várias e problemas de saúde, li artigo seu publicado no portal do PT. É um dos mais claros textos onde a cortina que esconde o funcionamento da podridão do nosso sistema é aberta e podemos entender com clareza seus mecanismos. Publico aqui com comentários:


A Favela é a Senzala do Século XXI

Por Hélio Luz

Onde, realmente, está o crime organizado? Como podem os desapropriados, explorados e oprimidos se organizarem numa máfia? A questão do estado paralelo foi colocada em evidência por ocasião da morte de um jornalista, com a notícia de que ele foi seqüestrado, julgado, condenado e morto por um bando. Isso, no Tribunal, foi considerado estado paralelo e, em cima, a colocação de crime organizado. Acredito que exista o estado paralelo, mas não é isso. A marginalidade não constitui estado paralelo.

A favela é um gueto que substituiu o local da senzala. É a senzala do século XXI, onde se situa a reserva de mão de obra, os negligenciados pelo Estado - reserva mantida pelo sistema de exploração. É aí que vamos tocar na origem da polícia, criada para fazer o controle dessa população. Em 1808, era o controle social dos escravos, agora é o controle dos favelados - os negligenciados.

Obs1: E prova que a principal tarefa desta polícia é controlar esta população é o uso do Caveirão nas favelas. Alguém acredita que ele funciona para prender traficantes? Claro que seu objetivo é o de aterrorizar os moradores. Fazem hoje o mesmo que há muito era feito contra a senzala.

Falemos do Rio de Janeiro, porque fica mais específico. A tendência aqui é jogar para as áreas de exclusão a prática do crime organizado e o estado paralelo. Estado paralelo é aquele que dá enfrentamento ao Estado e modifica as suas decisões. Aquele bando que existe lá no Morro do Alemão não tinha condição de fazer isso. Eventualmente, uma quadrilha identificou um repórter que atravessava informações. Ela o considerou inimigo e o executou. Assim, fica mais explícita a tendência de jogar para as áreas de exclusão a prática do crime organizado. Ao se falar em Estado paralelo, aqui no Rio de Janeiro, estamos falando, por exemplo, na Fetranspor (Federação das Empresas de Transportes de Passageiros). Ela, sim, enfrenta e impõe suas decisões ao governo. Ela coloca oito mil ônibus nesta cidade, que não têm capacidade para isso.Todos os poderes do Estado se submetem à sua vontade. Mantém o controle do Metrô e de todo o transporte urbano no Estado do Rio de Janeiro, para fazer sua frota circular, independente de que isso contribua, ou não, para melhor qualidade de vida do cidadão. No Rio de Janeiro é constante o congestionamento, porque fazemos transporte urbano de massa em ônibus, o que é inadmissível numa metrópole.


Obs2: Bingo! Quantas reportagens você já leu na mídia com denúncias contra a Fetranspor? Nada. Por que será? Nenhuma política pública de transportes existirá com a Fetranspor.

A Fetranspor sempre atuou com força decisiva dentro da Assembléia Legislativa e nos demais poderes do Estado, inclusive no Poder Judiciário. Também em Brasília ela mostra suas garras. É a esta capacidade de agir que eu chamo poder paralelo. O criminoso comum não tem esta capacidade financeira e de organização.

"Ah! Ele está no tóxico, no narcotráfico, tem muito dinheiro."

É outra inverdade. O narcotráfico vem sendo usado como senha para fazer o controle social, em todo o país. É simples. Se o pessoal da favela tivesse mesmo o poder e a quantidade de dinheiro que dizem, faria o controle de fora, mas aquele varejista que controla a droga fica na própria favela. Ele nem sabe para quem trabalha.


Obs3: É a proletarização do narcotráfico nas favelas, bem diferente da idéia que tentam vender. Quem leva as drogas para lá? Quem controla? Quem lucra?


O jogo do bicho está infiltrado em todos os Poderes constituídos!

Um dos crimes organizados no Brasil, não só no Rio de Janeiro, é o jogo do bicho. A definição que temos de crime organizado é: primeiro, ser cartelizado. No Rio de Janeiro, o controle do jogo do bicho na zona oeste é da família do Castor de Andrade, o da área da Tijuca é do Haroldo da Tijuca, em Nilópolis reina o Anísio Abraão Davi, em Niterói são outros.

Segundo: o jogo do bicho existe em nível nacional. O Estado da Bahia dá descarga para a família do Castor de Andrade, o Acre faz a descarga com o Luizinho da Imperatriz, o de Minas Gerais faz a descarga no Anísio, e por aí vai. O jogo é controlado e organizado em nível nacional.

Terceiro: este crime está infiltrado nos poderes constituídos. Ele elege a representação política dele dentro da Assembléia Legislativa, da Câmara dos Deputados e da Câmara dos Vereadores. Banca campanhas voltadas para o Poder Executivo. No geral, ele tem influência em todos os poderes, inclusive no Judiciário. Porém, nos estados do Norte e do Nordeste a miséria é tanta que ele não consegue nem chegar. É uma situação diferenciada, mas no Sudeste e Leste ele tem peso.

É bem visível no Carnaval, a presença do crime organizado no poder constituído: a Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro), a liga que eles montaram, é a direção do jogo do bicho, do crime organizado. Ela aluga o espaço público, o Sambódromo - a direção do crime organizado é parceira do Estado. Aí está a característica do crime organizado. Nós vamos ver o prefeito do Rio de Janeiro com colete, em que de um lado está escrito Riotur e do outro Liesa. É o crime organizado bancando e organizando o Carnaval do Rio, o maior evento turístico do país!


Obs4: E ao vivo e a cores para todo o Brasil. Chega a ser vergonhoso o tratamento que a mídia dá aos contraventores no Carnaval, sendo entrevistados como autoridades.

O jogo do bicho opera com o homicídio, é mantido pelo sangue!

O jogo do bicho não é um negócio inocente. Todo mundo acha que não tem problema nenhum, até a vovozinha joga. Não é isso, não! O jogo do bicho é mantido pelo sangue. Numa área determinada, ninguém faz concorrência, porque no dia seguinte vai ser morto. O jogo do bicho opera com o homicídio, o mais grave dos crimes que existe para o homem.

A desculpa do administrador público incompetente é que o crime organizado está na favela. Favelado não constitui crime organizado, mas bandos. Lógico, tem bando lá no Alemão, no Jacarezinho, mas esse pessoal não é cartelizado.

"Ah ! Tem Comando Vermelho, tem Terceiro Comando!"

Mas eles se engalfinham. Eles se enfrentam permanentemente - diferente dos banqueiros do bicho que não se enfrentam, nem delatam o outro. O Disque Denúncia vive em função da delação que o Terceiro Comando faz do Comando Vermelho e vice-versa. Para justificar a incompetência, eles dizem que os bandidos do Rio de Janeiro estão vinculados com os bandidos de São Paulo.

Só quem não conhece a polícia acredita nisso. Pode, eventualmente, um marginal do Rio ter relação com outro de São Paulo, mas isso não quer dizer que seja um nível de relação de organizações criminosas. Em São Paulo, eles acabaram com a direção do PCC (Primeiro Comando da Capital). Acabou o PCC. Onde está a direção aqui do Rio?

O que acontece no Rio de Janeiro? O chamado crime organizado é mantido pela organização que existe dentro do próprio Estado. É a própria polícia que mantém isso. Uma boa parte da polícia do Rio de Janeiro é corrupta! Essa afirmação não constitui novidade. Basta procurar nos jornais nos últimos três meses. É essa polícia corrupta que mantêm o narcotráfico no Rio de Janeiro. Não só as polícias civil e militar do Rio de Janeiro mantêm os pontos do narcotráfico do Estado, mas também a Polícia Rodoviária Federal e a Polícia Federal. O aparelho de repressão do Estado do Rio de Janeiro é corrupto de tal forma, que concorre com ele mesmo.

Este é o problema que ninguém quer tocar: o Estado brasileiro é um Estado altamente corrupto! Só este Estado corrupto pode manter o sistema capitalista, porque a corrupção é inerente ao sistema capitalista. Então fica tudo em casa. Essa polícia corrupta não vai tocar no rico, pôr o burguês na cadeia; não vai investigar o dinheiro desviado do Fisco e do Tesouro; tampouco vai investigar o Estado por dentro. É o grande acerto de contas que existe. Quando falo Estado Brasileiro, estou falando de Poder Executivo, governador, prefeito, presidente da República, seus secretários e ministros; do Poder Legislativo, Câmara Federal, Senado, Assembléia Legislativa e Câmaras de Vereadores, Poder judiciário e todos os tribunais.

A função desse Estado é arrecadar dinheiro: uma parte vai para a classe dominante fazer a sua manutenção e o restante é gasto no controle dos negligenciados. Não vê isso quem não quer! Quando a "mídia" fala em crime organizado e estado paralelo nas áreas de exclusão ela está desinformando o povo. Não é lá que eles estão!

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Hélio Luz foi deputado estadual pelo PT na última legislatura, não aceitando renovar sua candidatura. Foi Secretário de segurança do Governo do Estado, prestando inúmeros e corajosos depoimentos sobre a truculência e corrupção no aparato policial.


Perfeito. Vale mais que muitas teses de doutorado.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Crise na PF? Que crise?


Para o bem de sua saúde, não faça o que fiz. Tinha acabado de ler a última e excelente edição da Carta Capital quando fui ler a Folha de hoje. Matéria da repórter Catia Seabra fala de insatisfação na PF, começa assim: “Em meio à crise que abala a instituição, setores descontentes da Polícia Federal já defendem publicamente a substituição de seu diretor-geral, Luiz Fernando Corrêa.”

Vem cá. Crise, que crise? A que a Folha, Veja, Globo e Estadão tentam criar. Querem de todo o jeito enterrar de vez o delegado Paulo Lacerda, há três meses vivendo na clausura de um mofento escritório público. Transformá-lo em vilão é o melhor caminho para salvar as evidentes ligações da mídia com os negócios escusos de Daniel Dantas. Evitam que a PF volte a ser um exemplo de eficiência neste governo. É vil tentativa. E estúpida, a cada dia fica mais claro para a opinião pública que querem proteger um ladrão e seus aliados, inclusive na imprensa.

Só entende quem namora

Acho sempre instigante quando um filme divide a crítica. Normalmente há nele algo de relevante. É o que acontece com Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen. O crítico Pedro Butcher, da Folha, detonou a estréia do filme em Cannes. Oportunismo e conveniência foram palavras citadas para definir a escolha de Barcelona, depois do aporte de um bom patrocínio da prefeitura da cidade catalã. A mesma crítica é repetida por Arthur Dapieve na última sexta, no Globo, que afirma ser um mero filme de encomenda. E mais falam para sustentar a tese sobre um trabalho preguiçoso, vazio, apenas marcado por aparências e clichês,

Bobagens. Vi o filme antes de ler as críticas e o achei um dos trabalhos mais maduros de Allen. Divertido e ao mesmo tempo incômodo. Impossível vê-lo sem haver um dedo de identidade com algum momento dos personagens. Ali estão nossas dúvidas, procuras, obsessões, mesmo em um universo tão pequeno. E Barcelona não é apenas um merchandise de cidade, algo comum hoje nessa indústria. Há muito sentido para tal no roteiro. Todos os personagens de alguma maneira estão envolvidos em dar expressão criativa para suas questões. Vicky (Rebecca Hall) estuda a cultura catalã, Cristina (Scarlett Johansson) fotografa. São envolvidas em trama amorosa com Juan Antonio (Javier Bardem), pintor que aparentemente roubou o estilo de sua grande amada também pintora, Maria Elena (Penélope Cruz). Nada distante da vivência de lugar onde um arquiteto fez uma das obras mais inusitadas do planeta, muito além de paredes e tetos, um dos mais autênticos berros pela expressão.

É típica comédia de costumes, com encontros e desencontros, ótimos diálogos. Questionamentos sobre o desejo pelo outro. A tentação. A resignação. Os mais fortes sentimentos em um turismo acidental. Todos vivem intensas emoções, e terminam como começaram. Não há respostas fáceis. Difícil um crítico ser preciso sem ter vivido escolhas pela vivência de uma paixão arrebatadora, ou reconfortante amor previsível, com conseqüentes culpas, ou pela neurose do amor mal ou bem vivido, e perdido. É o que fica da dificuldade de nossos ingênuos críticos. Não é possível entender sem vivenciar as enormes dificuldades de realizar o desejo, algo muito além das fantasias.

Daí gostei mais da crítica despretensiosa de Cotardo Calligaris, na Folha, com sua manha psicanalítica:

“O amor e a paixão não nos fazem necessariamente felizes, mas são uma festa e uma alegria porque deles podemos esperar ao menos isto: que eles nos tornem um pouco outros, que eles nos mudem. Agora, nem sempre funciona...”

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

PHA, Dirceu e uma séria acusação

Um comentário do Conversa Afiada me deixou aborrecido. Vamos a ele:

Tais Morais: Zé Dirceu era agente duplo?

27/novembro/2008 19:29

Diário de um ex-agente sustenta que Dirceu teria delatado companheiros de luta armada

José Dirceu, o poderoso ex-ministro da Casa Civil de Lula, teria sido um agente duplo durante a ditadura militar? A questão acaba de ser colocada em pauta pelo livro “Sem vestígios: revelações de um agente secreto da ditadura militar”, da jornalista Tais Morais, publicado pela Geração Editorial. A autora já havia publicado, pela mesma editora, em 2005, “Operação Araguaia”, em co-autoria com o também jornalista Eumano Silva.

Em reportagem publicada hoje no Valor Econômico, Maria Inês Nassif revela detalhes sobre a origem da obra recém-lançada, produzida a partir do diário de um ex-agente do Centro de Informações do Exército, identificado como “Carioca”. Os originais do diário foram entregues à autora do livro após a morte do ex-agente, conforme instruções deixadas por ele próprio.

“Sem vestígios..” narra execuções bárbaras, como a de David Capistrano da Costa, dirigente do Partido Comunista Brasileiro, em um aparelho da repressão em Petrópolis (RJ). Expõe a afirmação de que Dirceu teria sido um agente duplo, responsável pelo desmantelamento do Molipo - Movimento de Libertação Popular (afirma também que dos 28 integrantes desse grupo, que fizeram curso de guerrilha em Cuba, apenas Dirceu e Ana Corbisier sobreviveram).

Diz o livro: “Segundo as notas de Carioca, depoimentos de alguns militares e as memórias do coronel Lício [Augusto Maciel] – naqueles idos, major – Daniel [codinome de José Dirceu] teria sido o agente duplo e, antes de morrer, Jeová [de Assis Gomes, militante do grupo armado] informara esse nome como o de quem havia traído o Molipo”. Ouvido pelo Valor, Dirceu diz que a afirmação contra ele é uma “infâmia” do coronel Lício, que teria “se especializado em difamar tanto a memória dos mortos como os que sobreviveram”. Veja a íntegra da reportagem, se você for assinante do Valor.


Fiz lá o meu comentário, em 28/11/2008, às 1:44:

Impossível dar crédito ao diário de um ex-torturador e narrado por uma autora que teve seu outro livro, sobre a Guerrilha do Araguaia, sofrido críticas por quem lá esteve. Luzia Reis Ribeiro foi guerrilheira no Araguaia e contesta o que os autores do livro Operação Araguaia, Eumano Silva e Tais Moraes, contam. Segundo ela, o livro se baseia fundamentalmente na versão oficial dos militares, em depoimentos arrancados sob tortura. Diz inclusive sobre a parcialidade do livro:

“Na verdade, cheguei à conclusão que os autores mostraram uma versão unilateral. A versão de um grupo de militares que querem apresentar à opinião pública, o PCdoB como o fracassado, o grande vilão da história. Querem também, inacreditavelmente, através dos “depoimentos em cartório”, manipulados pelos militares, responsabilizar os sobreviventes, como delatores, sob a desculpa de serem ideologicamente fracos.”

Portanto, usar um mero depoimento de militar ligado a tortura como evidência de “traição” parece apenas um jogo de cena para continuar a demonização de José Dirceu.

Sugiro a leitura do depoimento de Luzia em:


http://www.diariosdaditadura.com.br/tcc_mat_ver.asp?cod_col=81

Comentário adicional:

Ainda não vi resposta de Dirceu a mais nova acusação, mas achei interessante a quantidade de comentários de leitores do Conversa Afiada que protestaram contra esta aleivosia . Ainda me recuso a colocar Paulo Henrique Amorim do outro lado, mas está na hora de ampliarmos a discussão política para sairmos desse jogo que só benefecia os reacionários.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Os temores da Folha

Pobres leitores da Folha de S.Paulo. Ao lerem no jornal de hoje a reportagem de Eduardo Scolese e Simone Iglesias irão entender que um enorme grupo de representantes de movimentos sociais lotou o salão do Palácio do Planalto para lançar Dilma Rousseff a presidência. É apenas o que dizem, reproduzindo dois discursos. Em nenhum momento os leitores foram informados do motivo que levou àquela reunião. Seus leitores foram privados de saber que o movimento social compareceu a Brasília para falar sobre a crise. Há uma diferença muito grande para a mesma reportagem feita pelo Vermelho. O que teme a Folha para omitir tantas informações?

O discurso da presidente da UNE, Lucia Stumpf, que pediu o afastamento de Henrique Meirelles do Banco Central? Disse ela: “Nós precisamos mais de que nunca alterar a política macroeconômica ainda vigente no nosso país de juros altos, superávit primário e controle do fluxo de capitais. Eu diria que é necessário alterarmos a política implantada pelo Banco Central. Isso só será possível com a imediata demissão do presidente do BC, Henrique Meirelles”. E ainda mais: “Essa é a manifestação daqueles que vão pressionar pela transformação, porque nós afirmamos aqui nesse encontro que o povo não vai pagar o preço da crise. É preciso investir no futuro do Brasil. É preciso investir na sociedade”.

Ou o jornal estaria preocupado com o teor da carta assinada por 58 entidades e que foi lida por Marina dos Santos, representante do MST, que diz: “Queremos aproveitar essa oportunidade para manifestar nossas propostas concretas que o governo federal deve tomar para preservar, sobretudo, os interesses do povo, e não apenas das empresas e do lucro”. Seria este o ponto das preocupações da Folha, interesses de empresas e o lucro são sagrados, nem pensar em divulgar tamanha subversão?

Talvez o jornal tenha achado muita pretensão da senzala fazer análise econômica e pedir mudanças. Quanta ousadia da plebe! Nas 15 questões fundamentais do documento, sendo a principal o controle e a redução imediata das taxas de juros, defende que o governo utilize as riquezas oriundas da exploração dos recursos naturais para investimento em emprego, educação, terra e moradia. Imaginem quanto desperdício de recursos deixar de especular com o dinheiro para esbanjar com o gentio.

Discorrem nesta ambição: “O governo federal deve revisar a política de manutenção do superávit primário, que é uma velha desgastada orientação do FMI, um dos responsáveis pela crise econômica internacional. E devemos usar os recursos do superávit primário para fazer volumosos investimentos governamentais na construção de transporte público e de moradias populares para a baixa renda”, dizem. E ainda dão pitacos em questões internacionais, pedem a retirada de forças estrangeiras do Haiti e a criação de um fundo internacional para a reconstrução daquele país.

Mas quem sabe o incômodo maior do vetusto diário foi o pedido de ação pela democratização dos meios de comunicação? Algo que não pode ser publicado de jeito algum. Imaginam que aí seria o fim. A informação correria solta, sem controle, onde reportagens seriam contestadas, mostrando o outro lado. Total barbárie. Onde esta sociedade iria parar?

Nossa imprensa apoiaria um Mubarak na Venezuela?


A mídia brasileira mais uma vez esteve em campanha contra Hugo Chávez. Antes das eleições já vendiam a opinião de que o processo seria viciado e que o governo “ditatorial” usaria de truculência contra a oposição, pondo dúvidas sobre o futuro resultado. As eleições aconteceram, não houve protestos sobre a sua legitimidade e a mesma mídia passou a comemorar o resultado como prova do fim da revolução bolivariana.

Não foi bem assim, basta um olhar desapaixonado pelos números. Mas gostaria de lançar algumas perguntas para entendermos esta fixação que a imprensa tem com Chávez, que motiva o farto espaço dedicado a ele, sempre para desqualificá-lo.

Quanto espaço vem sendo dado em nossa mídia ao governo de Hosni Mubarak no Egito, que já dura 27 anos?

Quantos editoriais foram escritos para condenar as últimas eleições plebiscitárias, em 2007, quando menos de 5% dos egípcios referendaram as reformas constitucionais?

Quantas palavras os colunistas amestrados usaram para condenar a ditadura sanguinária do Egito, que se vale de eleições fraudulentas para legislar com leis emergenciais que permitem acabar violentamente com greves e divergências políticas, calar a imprensa, prender pessoas rotineiramente sem julgamento e torturar prisioneiros?

Quantos posts os nossos blogueiros de direita usaram para condenar a prisão de Abdel Kareem Nabil, estudante da Universidade Al-Azhar, que foi sentenciado por ter feito críticas em seu blog a Mubarak e aos muçulmanos conservadores?


Nada. Mubarak fica do outro lado do leque ideológico. Chegam até a analisar o Egito como força de equilíbrio no Oriente Médio. Isto porque dividiu o mundo árabe, fazendo a política dos EUA na região, apoiando a guerra contra o Iraque, as provocações ao Irã, ajudando Israel contra os palestinos.

Nossa mídia nem personalidade tem na cobertura de assuntos internacionais. É apenas uma caricatura tosca da CNN ao repetir o chororô pelo petróleo que não é mais patrimônio americano. Que homem mau é o Chávez, né?

Ps: querem entender mais sobre os crimes de Mubarak? Sugiro consultar o verbete sobre o Egito da Anistia Internacional. Ele é farto e está baseado em vários relatórios de seus representantes, que inclusive entrevistaram vítimas daquela ditadura e seus familiares.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Crise? Toma que o filho é teu!

Já está em curso a tentativa das classes dominantes de repartir o resultado da falência do projeto neoliberal com toda a população. A receita é simples: arrocho salarial, nova reforma da previdência, penalizando aposentadorias e pensões, redução de investimentos nos programas sociais e demissão de trabalhadores, principalmente no serviço público. É roteiro conhecido. Quando as coisas vão bem, privatizam os lucros. Quando vão mal, socializam os prejuízos. Assim mais uma vez será feito se os trabalhadores aceitarem pagar as dívidas que não fizeram. Mas já há sintomas de reação. No próximo dia 3 de dezembro, espera-se que mais de 15 mil trabalhadores de todo o país marchem na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, para exigir que “os ricos paguem a crise do capitalismo”. É assim como convocam as principais centrais sindicais brasileiras (CTB, CUT, FS, NCST, UGT e CGTB), com o apoio de diversos movimentos sociais.

Não podemos cair no caô que a mídia tenta impor, com seus amestrados colunistas. A crise é de quem especula com o capital, que não produz, não investe. É modelo que apenas favorece o grande cassino mundial. O santo mercado, amplamente defendido pelos abonados especuladores, foi a pique. Não conheço proleta que tenha se locupletado com a especulação. Não faz o menor sentido que venham agora pedir ajuda. Sugiro a leitura de quatro posts do Blog do Miro. Altamiro Borges recupera textos já publicados, com fartas referências, para explicar o mecanismo do atual capitalismo. Leiam o Post 1, o Post 2, o Post 3 e o Post 4. E entendam o fundamental da economia, onde a Miriam Leitão não tem como explicar.

E para ajudar na agitação e propaganda, segue minha colaboração para as faixas. Tenho já muitas contas para pagar, essa tô fora!

domingo, 23 de novembro de 2008

O moderno José Serra


Como o governador José Serra é um homem à frente de seu tempo. Descobriu que o grande negócio do momento é a indústria automobilística. Imagina que ela está bombando em todo o planeta. E há muito espaço nas ruas para mais carros. Basta circular pela capital de seu estado para constatar.

Depois de ajudar a indústria automobilística paulista com crédito, fez acordo para a construção de mais uma indústria, em Piracicaba, da coreana Hyundai. Para quem não lembra, é a dona da Ásia Motors, empresa que assinou acordo com o governo FHC para a construção de uma fábrica em Camaçari, na Bahia. Fernando Henrique e Antônio Carlos Magalhães estiveram presentes na solenidade de lançamento da pedra fundamental. Nada foi construído e durante um bom tempo a Ásia Motors se valeu do acordo para a isenção de 50% na importação de veículos. Mais de 70 mil Topics e outros modelos encheram nossas ruas, gerando uma dívida hoje de mais de um bilhão em impostos não recolhidos e uma enorme batalha judicial, que envolve a empresa coreana e seus sócios brasileiros.

Serra pouco liga para os fatos. Imagina mais empregos, impostos, se dessa vez os coreanos cumprirem o acordo. E tome mais carros, mesmo que eles não possam circular nas inchadas cidades. É a visão tucana de planejamento. E o metrô de São Paulo? Necessidade de proletas. Que esperem o momento para comprar seus carrinhos.

A mídia do povo

Recebo um simpático comentário do John Cutrim e percebo uma grande injustiça do nosso blog ao esquecer de linkar o Jornal Pequeno, bravo representante da imprensa alternativa no Maranhão, com bela história que começa em 1951. Agora, nas manhas da web, dando espaço para vários blogueiros atuantes. Estamos corrigindo a injustiça e atentos para divulgar o jornal.

Fico impressionado com a abundância de blogs políticos gaúchos. São muitos, atuantes, e fazem um bonito contraponto às pretensões do cartel da RBS. Mais um blog aparece com verve das boas, o Cloaca News, com propósitos claros de desmascarar a máfia midiática. Vale a pena acompanhar.

Outro jovem blog de política que começa com gás é o Brasil Mobilizado. Mais um bom canal para desmistificar a corrompida mídia brasileira.

Longa vida para todos.

Atualizando: Outro que injustamente faltava em nossa lista é o Blog de um sem-mídia, do Carlos Augusto Dória. Comentarista compulsivo em jornais e blogs, leitor voraz, reúne uma ótima seleção de posts em seu blog. É leitura obrigatória.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Pílulas de quarta-feira


Bravo juiz De Sanctis! E que agenda cheia esta semana para o caso Daniel Dantas. TRF, STJ, com várias derrotas para o banqueiro. Um interessante estudo é acompanhar a quantidade de notícias publicadas ao longo das últimas duas semanas para demonizar o juiz e o delegado. Que fato novo havia? Nada. Apenas a agenda da defesa de Dantas que pautou a mídia. O tom da continuidade da campanha já foi dado pela Folha Online com o título:“Juiz desiste da promoção para continuar no caso Daniel Dantas”. Interpretam seus reais objetivos, logo falarão de obsessão, podem apostar. E que história é essa de gravação de reunião de delegados que vai parar na imprensa para ela insinuar que houve de fato uma irregular gravação no STF? Quem gravou? Quem distribuiu? Com que propósito? Já está virando comédia.

Acreditem, li a coluna de Clovis Rossi nesta terça-feira e quase não me irritei. Na verdade outro sentimento foi mais forte. Percebi claramente como os jornais ficaram velhos e que muito em breve estarão mortos. Qual a importância de comprar um amontoado de papel para ler uma opinião de direita se há várias de graça na internet? Colunas e artigos morreram no papel. Que há de diferente em seu texto? Fazer uma mera provocação a Lula, Cristina Kirchner e Hu Jintao por terem assinado um documento do G20 que defende a economia de mercado? Deveriam ter cruzado os braços e decretado a revolução socialista mundial ali? A única relevância na leitura estava no final do texto, no PS com pedido de desculpas pela coluna de domingo, onde disse que Vladimir Herzog era terrorista. Ficou ainda mais claro o “já era”. Onde eu poderia de pronto postar um comentário para dizer que terroristas foram os que o assassinaram, depois de bárbara tortura? E ainda tiveram o atrevimento de inventar um suicídio. E lembraria também que a empresa que paga ao colunista foi cúmplice desses torturadores naquela época. Clovis Rossi, nunca mais!

Para avisar que volta a pauta do STF a decisão sobre a Lei de Imprensa, Cláudio Lembo lembra de John Milton, poeta inglês renascentista, que em 1644 publica Areopagítica, um manifesto de influência liberal na defesa da liberdade de expressão, contra decisões do parlamento que censurou um de seus livros. Interessante, copiei e em breve vou colar em algum lugar do blog a frase de Milton: “Dai-me liberdade para saber, para falar e para discutir livremente, de acordo com a consciência, acima de todas as liberdades”. Pessimista que sou, será uma forma de já preparar campanha para quando a justiça garantir ao cartel midiático toda a liberdade para fazer golpismo, enquanto a internet, da senzala, terá a severa vigilância de nossos juízes.

O blogueiro viaja nesta quarta e só volta no domingo. Estará sem internet, celular, GPS... Será orientado apenas pelas estrelas, se não chover.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Entendendo Mendes

Quando Gilmar Mendes tomou posse da presidência do STF, em 23 de abril último, estranhei o tamanho da festa na Corte. Toda a república estava presente. Vários ex-presidentes, empresários, donos da mídia, até o Pelé compareceu. Foram cerca de 4.800 convidados, servidos das melhores bebidas, salgados, canapés e boa música, a cargo de orquestra da Universidade de Brasília. Tamanha demonstração de importância, que segundo O Globo custou R$ 76 mil, aguçou minha curiosidade sobre este homem que disse na posse que para aperfeiçoar o judiciário era necessária a “diminuição dos custos e a maximização dos recursos”. Como é tema recorrente em seus discursos, — segundo a mesma reportagem, Mendes, em sua posse no CNJ criticou os gastos excessivos do judiciário e defendeu uma melhor gestão de recursos — entendi que o STF fazia ali uma maximização. O dinheiro investido teria retorno garantido. E o fato me fez perguntar a amigo jornalista, experiente profissional, quem era afinal o tal Gilmar Mendes, que até então pouco havia me dado conta da existência. A resposta precisa é impublicável, mas em uma versão livre foi dito que era alguém que tinha muitos negócios na República, com muita troca de interesses com os que ali estavam em sua festa.

Entendi um pouco melhor da explicação do amigo quando a reportagem de capa da Carta Capital, de 6 de outubro, mostrou o empresário Gilmar Mendes e seus negócios no Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), com contratos conseguidos pela boa influência política, até mesmo para a compra de um terreno para sua sede, adquirido por 20% de seu real valor.

Agora, na última edição da mesma revista, entendo o que faltava. Gilmar Mendes é autêntico representante de nosso passado colonial, atuando como coronel na política da cidade de sua oligarca família, Diamantino (MT), de forma muito distinta da de um guardião do estado de direito. Há fatos muito graves apurados pela reportagem. E demonstram que os valores republicanos do ministro não valem muito em sua terra. Entre tantos casos narrados, fiquei consternado com o acorrido em 14 de setembro de 2000, quando a estudante Andréa Paula Pedroso Wonsoski registrou um boletim de ocorrência em delegacia da cidade contra o irmão de Mendes, candidato a prefeito pelo PPS. Diz o BO que a jovem afirmou ter sido repreendida pelo candidato um dia antes e ameaçada por seus cabos eleitorais, irados por denúncia feita em rádio de troca de cestas básicas por votos. 32 dias depois, após participar de um protesto estudantil contra o abuso do poder econômico nas eleições municipais, Andréa desapareceu. Seu corpo só foi encontrado em 2003 e apenas em 2005, depois da insistência de sua mãe em apurar o caso, o exame da ossada descobriu que foi morta com um tiro na nuca. O caso está arquivado na Vara Especial Criminal de Diamantino e a polícia nunca conseguiu esclarecer o crime. A justiça ali nunca foi feita. Lá a legislação parece que é outra.

sábado, 15 de novembro de 2008

Pílulas de um pouco do que abunda


Já afirmei aqui e repito que para este escrevinhador que vos fala o blog é mero canal para o desabafo de suas preocupações existenciais. Uma solução catártica para com as muitas raivas do dia-a-dia, normalmente vinculadas à canalhice abundante. Não tenho nada para vender ou promover. Nenhum projeto para compartilhar. E da minha vida pessoal nada há de relevante que mereça atenção. Apenas desejo me livrar dessa sensação de ser o único a se sentir sacaneado. E tem sido ótimo. O resultado em comentários e na leitura é melhor do que podia imaginar, purgando as dores ao descobrir alguns iguais nas mesmas aflições. Daí estranhei minha própria reação ao julgamento do habeas corpus de Daniel Dantas na quinta retrasada. Desenhei uma fotopotoca com a canalha do STF e calei. A vontade era a de esmurrar. Sair berrando pelas ruas, imaginando encontrar algum parceiro igualmente insano. Nenhuma palavra, nenhum desenho teria efeito. Manifestou-se em meus pensamentos um total pessimismo para com a importância da comunicação e com minha limitada capacidade de participação na república. Mas passou, passou... Continuo achando a democracia mauricinha uma enorme farsa, mas agora ao menos consigo voltar a desafogar esta amargura.

Ao longo dos últimos dias a mídia maurícia seguiu um roteirinho básico de desqualificação do delegado Protógenes e do juiz De Sanctis. O primeiro é criticado pela “edição” do texto do inquérito da operação Satiagraha, por ter vazado informações e ter chamado a Abin para participar. Do segundo, ainda não entendi a bronca. Gilmar Mendes e Cezar Peluso tentaram explicar. Do último, entendi que foi um desrespeito à suprema corte ao ter insistido em prisão quando havia decisão anterior. Ainda aguardo melhor entender, mas infelizmente não será pela mídia. Imagino a dificuldade de reproduzir ao longo de muitos dias o mesmo reduzido enredo. Tarefa complicada para o proletariado da imprensa. O resultado deveria ser estudado pelos nossos acadêmicos ou futuros historiadores deste imbróglio. Na última quarta a Folha demonstrou esta complicação técnica com a falta de assunto ao dar destaque para a “suspeita” escolha da suíte 555 do Hotel São Paulo Inn. Reportagem de Ana Flor descreve onde ficava tal local, quem freqüentava, quem era o arquiteto do hotel e para ilustrar uma foto do filme “O iluminado”. Para o jornal, a semelhança de 666 e 555 faz uma tese do interesse dos seus leitores. Coitados.

Surpreendentemente, só hoje li algo de novo na mídia que vale a pena sobre o assunto Satiagraha. No Valor, reportagem de Caio Junqueira esboça os desafios para o Juiz Fausto De Sanctis nesta próxima semana, quando haverá o julgamento no TRF do pedido de suspeição feito pela defesa de Daniel Dantas. O tribunal encontra-se em processo eleitoral, sendo disputado por dois grupos, onde o juiz mantém independência. Segundo o texto, há inúmeras nuances políticas onde De Sanctis enfrenta dificuldades, lembrando o caso da juíza Márcia Cunha, aqui já comentado, que foi afastada por ter dado decisão contrária ao grupo Opportunity quando em sua disputa pelo controle da Brasil Telecom. O texto lembra que nesta semana a sentença por corrupção contra Daniel Dantas, Hugo Chicaroni e Humberto Braz deve ser proferida, o que explica as críticas recentes contra De Sanctis.

De fato, a Kelly tem razão. O Valor Econômico passou a ser o jornal onde é possível existir alguma informação sem a panfletagem escancarada, da mais obtusa apuração dos fatos, nos comentários mais óbvios. O artigo do professor Wanderley Guilherme dos Santos sobre as expectativas de Obama é um primor de fina ironia. Crítica ferina, técnica, a um leque amplo que vai da direita a esquerda. Algo a ser lido e estudado.

E falando de democracia, o Mox faz um preciso, minimalista e provocador comentário sobre frase onde digo que a candidata Cynthia McKinney tem em Cuba um exemplo de democracia. Ela o disse em discurso ao defender o fim do embargo à ilha, justificando que os EUA têm o que aprender com os cubanos. A palavra democracia foi minha, talvez tenha incorrido em erro de algum manual de bom jornalismo. Como não o sou, não tenha o propósito de ser e menos ainda de ver tal prática sendo usada em nossa mídia, apenas justifico que fui passional em concluir com meus pensamentos. Acho que a democracia de lá dá banho na tão decantada do norte. Os motivos são muitos e rendem uma boa polêmica, infelizmente relegada ao plano dos anátemas usuais. Mas achei divertido ser observado por alguém que respeito, que pertence a uma geração bem mais nova que a minha, que está em polêmica acirrada sobre os caminhos do pós-modernismo.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Jornais

Eu lia jornais. Adolescente, lia o JB diariamente e ansiava pelo caderno Idéias. Li até quando o jornal se tornou um reprodutor de releases picaretas e o Veríssimo parar de escrever em suas páginas. Assinei a Folha por anos, e honestamente, nada me parece mais adequado para definir aquilo que colunas e ruínas. Ganhei todos os brindes toscos e um dia, cansada com aquela papelada embololada, cancelei a assinatura. O Globo foi cancelado esta semana porque, honestamente, tudo tem limite. O Valor freqüentou minha casa por motivos profissionais, e apesar do alto preço do jornal, me apeguei, especialmente às edições de sexta feira. Passei um tempo esquecida disso, até reler o Wanderley Guilherme há semanas sobre a não política do Gabeira.
Hoje lendo o que ele escreveu sobre o Obama e a ingênua esperança de tantos, ô, me lembrei de quando eu gostava de ler jornais.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Daniel, esse amigo supremo

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Para não dizerem que não falei de Obama


Para falar, tenho que fazer uma revelação, bem pessoal: eu fiz um curso de meditação. Precisava dormir melhor, eliminar tensões, segui conselhos. Não aprendi o suficiente para meditar, confesso. Fui péssimo aluno. Mas ficou algo das lições do professor, formado no Oriente. A principal é a necessidade de sermos extremamente seletivos com os diversos apelos simbólicos de uma sociedade que te exige atenção o tempo todo. Aprendida a lição, coloquei logo em prática o ensinamento e chutei o curso, selecionando outras opções de informação. Ainda tenho insônias constantes e dificuldade de relaxar, mas consigo me desligar de muitos convites cotidianos à compra de diversos produtos. Sou péssimo consumidor. Talvez isso explique o meu descaso com essas eleições americanas.

Foi impressionante a quantidade de espaço dedicado a elas pela nossa mídia. Minutos e mais minutos nas TVs, páginas e páginas nos jornais, durante infinitos meses, e eu ali alheio. Claro que houve momentos em que quase fui seduzido. O título no Globo “A casa onde Obama perdeu um poodle” é um convite quase irrecusável. Mesmo assim, continuei alienado naquela fartura de informações, sem saber de algo tão fundamental e decisivo. Afinal, como se chamava o cachorrinho? E a casa? Paciência.

Ontem me rendi. Acompanhei a apuração. Fiquei impressionado com a quantidade de pessoas que esperavam Obama em Chicago para um pronunciamento como eleito. Muitos choravam quando anunciada sua vitória. Gritavam ou portavam slogans: Change, we can believe in. Yes, we can. Belo. E que coisa mais simbólica. Acredito em mudanças. Acredito que a necessidade histórica leva a elas, assim vem acontecendo há muitos milênios. Imaginar que após a primeira eleição do último presidente, em sua caminhada rumo ao Capitólio para a posse, sua limosine teve que correr, com o povo atirando ovos... Elegeram um presidente mestiço, que fala em unir o país. É um grande passo.

E a questão do simbólico, do professor zen-budista, reapareceu na minha cabeça ontem. Claro, me tirando um tanto mais do sono, aumentando minhas tensões. Pensei em nossas últimas eleições municipais, impossível não associar algumas coisas. Estas também foram bem marcadas pelo simbólico. Aqui talvez com outro slogan: No change. Reelegeram até o Kassab. Mas naquele simbólico da massa esperando o Obama fiquei mais detido, imaginando coisas. Voltei a ler a nossa rígida e parcial legislação eleitoral. Algo que soma às minhas atuais variadas preocupações. Li mais uma vez o Código Eleitoral, art 242, caput, citado na Resolução n° 22.178, em seu Art 5°, do TSE: “A propaganda, qualquer que seja a sua forma ou modalidade, mencionará sempre a legenda partidária e só poderá ser feita em língua nacional, não devendo empregar meios publicitários destinados a criar, artificialmente, na opinião pública, estados mentais, emocionais ou passionais”. Impressionante a preocupação dos nossos legisladores com os “estados mentais” do nosso povo. Quantos receios. Não que eu ache que na democracia americana existam mais oportunidades para a catarse coletiva. Tal evento em Chicago nada prova em contrário, mas fica o exemplo em nossa legislação dos reais temores de nossas elites. O que acham que fariam se tomados pela emoção? Votariam errado? Apoiariam um líder, como na terra de Obama aconteceu, que deu uma esculachada geral em uns soldadinhos ingleses? Maior perigo. Teríamos que conviver com esta cara em notas do nosso dinheiro por séculos. Seu nome em ruas, cidades. Coisa de terceiro mundo, né?

Por favor, é só um desabafo irônico, não quero criar artificiais estados emocionais em nosso povo. Não tenho como concorrer com nossa mídia, que para eleger um presidente com a cara do Nosferatu, um dos seus últimos quadros possíveis, conseguiu criar um falso alarme com a febre amarela, levando milhares a se vacinarem desnecessariamente, com mortes registradas por esse alarmismo. É concorrência desleal. Nem quero adiantar aqui o meu descrédito por uma verdadeira mudança nos EUA com Barak Obama. Não vale lembrar agora que seu consultor para política externa é Zbigniew Brzezinski, quem vem desenhando há muito os desafios da expansão do império americano, e que teve na família Bush bons e fiéis seguidores. Na verdade esse papo todo é para dizer que se votasse nos EUA teria escolhido Cynthia McKinney. Who? Ah, claro, ela foi candidata nestas eleições, pelo partido verde, sem espaço nas regras democráticas americanas. É uma ex-congressista atuante, com propostas de mudanças reais e possíveis para aquele país e o mundo. Corajosa, enfrentou no Congresso de lá o Rumsfeld, cobrou do governo americano suas responsabilidades no 11 de setembro, defende os governos progressistas da América Latina, inclusive cita Cuba como um exemplo de democracia. Enfim, bem diferente do que pensam nossos verdes, que gostam mais de serem vistos como símbolos, posando para fotos com militares, almejando saírem na revista Caras, convidados para o curral vip de vários eventos, e sob o aplauso de todo o Leblon.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Justiça tucana tira blog do ar

O blog Flit Paralisante, do delegado Roberto Conde Guerra, líder da greve da polícia civil de São Paulo, foi tirado do ar na última sexta, por decisão da justiça paulista. A mídia, que foi avisada no próprio dia, omitiu totalmente o fato em seus noticiários. Esta mídia não se importa que a decisão do juiz Davi Capellato golpeie frontalmente a Constituição da República no direito à livre expressão. Logo ela que vive se fazendo de vítima de censura quando a sociedade lhe cobra ética e princípios no seu trabalho. Como a censura é a um blog, de um inimigo de seu candidato à presidência, vale a punição.

Esta é a nossa justiça, sempre aliada aos interesses das elites e contra o povo. Na última eleição legislou para o poder econômico, contra o debate de idéias. Agora, revive as táticas da ditadura.

Mas, como sempre, a direita é burra. O juiz está desde a sexta emitindo novas sentenças contra o Google, pelo simples fato que muitos ajudam o delegado, recuperando textos do cache do blog censurado e criando outros.

O tucanato sabe tudo do pior da ditadura, mas não conhece o poder da internet.

Todo apoio ao delegado censurado!
Censura a internet NÃO!

PS: Alguns links que estão mantendo o blog no ar, enquanto a justiça tucana tenta impedir:

www.flit-paralisante.blogspot.com
www.flitparalisante.wordpress.com


O assunto foi noticiado pelo Rodrigo Vianna ontem, segunda, e reproduzido hoje no Vermelho.

A decisão do juiz, sobre a tentativa de proibir outros blogs com o mesmo conteúdo, é um primor de estupidez. Lembra as mais notórias asneiras da censura da ditadura militar. Vejam aqui.

A entrevista de José Dirceu

Achei louvável a Carta Capital ter entrevistado José Dirceu em sua última edição. Depois de Mino Carta e Dirceu terem publicamente divergido por episódio sobre um encontro, suas interpretações, negações, em quantos toques foi combinada uma resposta, depois mudada etc, fazer uma entrevista onde todas as mesmas e severas acusações são feitas, permitindo sua defesa, é digno do melhor jornalismo. E o resultado é concreto, muito além das limitadas análises sobre se entre entrevistadores e entrevistado houve vencedores. O que fica evidente na entrevista, muito além das especulações sobre culpabilidade, é a enorme capacitação política de José Dirceu, sua notória expertise em negociação, que agora se volta apenas para o mundo dos negócios, onde é acusado de ter relações com Daniel Dantas, o que nega. Que valor é esse que julga um dos melhores quadros políticos brasileiros, que amarga uma das mais venais perseguições políticas? Que está inelegível por decisão de comissão do Congresso, acusado sem provas por parlamentar que também foi condenado. Que teve sua vida devassada pela justiça. Exposto à execração pública pela mídia, partidária e atuante ao lado dos setores mais atrasados do país. O resultado é vergonhoso. Aqui, mostrei um vídeo onde José Dirceu é hostilizado ao votar nas últimas eleições municipais. Contraditoriamente, Paulo Maluf, condenado pela justiça, réu em mais de uma centena de processos, candidato a prefeito, votava sem constrangimentos. É crime tal uso da mídia. E maior incômodo reside no fato de vermos setores da própria esquerda chafurdarem no mesmo conto do vigário. Ingenuidade? Até há. Mas, infelizmente, maldade também. Uma pergunta e resposta são esclarecedoras:

Carta Capital – Muitos petistas não gostam do senhor e dizem o oposto do que o senhor diz aqui agora. O senhor sabe, não?

José Dirceu – Infelizmente de maneira trágica, durante o caso que ficou conhecido como mensalão, usou-se a crise como instrumento de luta interna do PT. Num momento daquele, quando era preciso defender o partido, tentou-se dentro da legenda destruir algumas lideranças. Respondo pelo que fiz. Mas daí a quase se aliar aos algozes que nos acusavam para tentar alcançar a direção do partido foi muita hipocrisia.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

E sobre a tal da democracia...



Nada melhor que ver e ouvir o Prêmio Nobel, José Saramago, lançando luz sobre a cegueira.

Trecho do documentário “Encontro com Milton Santos”, de Silvio Tendler.

Balanço das eleições (2) – Togas e votos

Uma das marcas destas eleições municipais foi o assassinato da democracia, patrocinado pelo TSE e seus TREs, que cercearam a liberdade de expressão garantida na constituição brasileira, enquanto em nada atuaram para impedir o abuso do poder econômico. Há fatos graves que merecem atenção de toda a sociedade. E sobre isso, acho preocupante não ler manifestações públicas ou comentários em blogs. Inclusive por eles, e toda a própria internet, serem alvos declarados deste cerceamento, apenas não consumado pelas dificuldades práticas que impediram a fiscalização. Uma única exceção, que eu tenha tomado conhecimento, foi a isolada manifestação de Idelber Avelar em seu blog, em 19 de outubro, quando disse que a “judicialização do debate político é daninha e deve ser combatida. (...) Por isso acho cínico e intolerável que algum blogueiro passe a considerar natural que um partido político seja proibido de, caramba, imprimir um panfleto”. Opinião solitária, depois compartilhada por alguns comentaristas em seu blog, que levantaram um problema grave e impossível de ser abraçado pela cúmplice mídia oficial.

Vamos juntar e pensar sobre fatos conhecidos:

A liberdade de expressão

Um novo conceito debutou em 2008, o da “propaganda negativa”. Não está na lei, a Resolução nº 22.718, que regula o Código Eleitoral, mas na jurisprudência estabelecida nos tribunais, exercida severamente pelos seus fiscais e propagada com estridência pela mídia. Diversos materiais foram apreendidos em 2008, adesivos retirados de militantes e panfletos considerados apócrifos por não estarem com a devida assinatura da campanha, seus candidatos, siglas etc, que é o que rege a Resolução. Imaginem o inusitado da lei que fez fiscais do TRE, em plena Av. Rio Branco, no Centro do Rio, recolherem adesivos da União da Juventude Socialista, a UJS, que mostravam Fernando Gabeira ao lado de César Maia, José Serra e FHC. “Propaganda negativa” por não registrarem também o candidato Eduardo Paes, seu vice, e os vários partidos que compunham a aliança no segundo turno. Haja desafio para a diagramação em tão restrito espaço. As incoerências foram várias e fizeram vítimas.

Um caso exemplar: no dia 16 de outubro, O Globo publicou toda uma nobre página sobre a apreensão de uma Kombi com material irregular de campanha de Eduardo Paes. Havia lá faixas com a inscrição: "Sou suburbano com muito orgulho", em referência à declaração do candidato do PV contra a vereadora Lucinha (PSDB), material de sobra de campanha da vereadora eleita Clarissa Garotinho e panfletos assinados por uma associação de moradores, considerados apócrifos apenas por não seguirem as normas da lei, com as devidas assinaturas de campanha. O presidente da Associação de Moradores do Morro São José da Pedra foi ouvido e negou autoria. E a palavra “apócrifos” foi grafada diversas vezes ao longo do texto.

No dia seguinte, mais uma página em destaque sobre o episódio. Poucos fatos novos, mas a apuração ao longo do dia descobriu que o presidente da associação era quadro do PMDB. De novo foi ouvido, confirmou seu histórico com o PMDB e voltou a negar a autoria do panfleto. O título da reportagem: “Todos os caminhos da Kombi levam ao PMDB”.

Trocando em miúdos. A rígida e parcial legislação eleitoral, que obriga campanhas a normas grotescas, como a de fazer constar em cada material assinatura de campanha oficial, permitiu o sensacionalismo do jornal. Em um dia o grande crime era o de panfletos serem apócrifos. No segundo, de serem assinados pelo PMDB. Uma nítida manobra diversionista.

Mas, graças a leitor deste blog, vamos ao conteúdo do panfleto para tirarmos algumas conclusões. Diz ele:

Vamos dizer não a diminuição da qualidade de vida da Zona Oeste

A posição do candidato à prefeitura do Rio de Janeiro, Fernando Gabeira, ao fazer críticas desrespeitosas à vereadora Lucinha, contrária à instalação do lixão em Paciência, é, no mínimo, surpreendente.

Parece incoerente uma vez que o deputado Luiz Paulo, seu vice, e a vereadora Lucinha sempre se posicionaram contrários ao lixão.

As alianças que estão sendo formadas neste segundo turno podem ajudar a entender a natureza deste ataque. Todos sabem que o prefeito César Maia, que apóia declaradamente a candidatura de Gabeira, tem interesse na instalação deste lixão em Paciência.

Amigo de Julio Simões, César pode ter condicionado seu apoio no segundo turno à instalação do lixão. Julio é “o tubarão do transporte de lixo” e recebeu R$ 15 milhões por mês (R$ 180 milhões por ano) da Conlurb durante toda a gestão do prefeito. Ele quer ser o dono de Paciência e trazer à Zona Oeste todo o lixo da cidade e de outros municípios. Só isso explica a opinião do candidato à Prefeitura sobre a posição da vereadora.

Porém é preciso observar os fatos. Ao chamar a vereadora Lucinha, combativa defensora da população da Zona Oeste, de “analfabeta política”, de visão suburbana e precária, numa conversa ouvida por jornalistas, Gabeira mostra ao que veio.

Assoc. de Moradores do Morro São José da Pedra


Eu pergunto: tirando a ilegalidade, conseqüência da burocrática e rigorosa lei, o que este conteúdo tem de errado?

Eu digo, nada. Muito pelo contrário, há nele questões mais relevantes para os interesses da população do Rio de Janeiro do que muito do que foi discutido em mornos debates na TV. A questão do lixo passa por duas empresas, a de Julio Simões, a maior transportadora brasileira e uma outra, a Marquise, que disputam e dividem interesses dentro da comprometida Assembléia Legislativa, fato que o mesmo jornal O Globo noticiou diversas vezes. Tal queda de braços já levou a acaloradas discussões dos parlamentares, várias comissões na Alerj, com uma cobertura pífia da mídia. Levantar o assunto na campanha é altamente positivo, e tarefa obrigatória da sociedade organizada, mas infelizmente negada pela legislação eleitoral.

O abuso do poder econômico

Tenho poucas informações do restante do Brasil, mas no Rio de Janeiro imperou o uso do poder econômico no resultado das eleições. O fato dos governadores dos três maiores estados brasileiros terem elegido os prefeitos de suas capitais já merecia um voto de desconfiança. O visível uso do dinheiro, inclusive público, para patrocinar uma horrenda demonstração da nossa barata mão de obra, que segurava placas poupando postes, outra. E novas questões ficaram claras sobre como os Tribunais Eleitorais foram omissos em controlar o abuso do poder econômico. Matéria do jornal O Globo de 26 de outubro demonstra que dos 51 novos vereadores eleitos, 19 o foram graças a artimanha dos centros sociais. Uma aberração, comparada aos piores métodos dos coronéis de nosso passado colonial. Basta uma política clientelista a uma comunidade carente para transformar milagrosamente em votos pouquíssimos investimentos. Algo que foi usado por 37% da nova Assembléia, mais que um terço dela. Exemplo está na tal vereadora Lucinha, a mais votada, que controla seis centros sociais.

E o que nossos juízes eleitorais fizeram? Olharam para o outro lado, mais preocupados em impedir o povo organizado de manifestar sua opinião. Querem um exemplo? Está no mesmo O Globo de 26 de outubro, data do segundo turno das eleições municipais, em entrevista de Rogério Nascimento, procurador regional eleitoral, representante do Estado em nome da população, para nele fazer valer nossos direitos na legislação. Ao passar o bastão para a nova procuradora, Silvana Battini , fez um balanço de problemas. Diz ele sobre os centros sociais:

“A disputa acirrada trouxe também o abuso de poder econômico e os centros sociais são o maior problema e maior sintoma do abuso de poder econômico. Tivemos muitos candidatos vitoriosos que devem seu mandato a esses centros. Isso eu sempre defendi e não tive nenhuma decisão da Justiça que abraçasse esta bandeira. É um erro grave achar que centro social é um mal necessário. É grave a conseqüência para a democracia, porque tira a igualdade de condições entre candidatos.”

Boa constatação. E deveria o jornal melhor apurar os motivos que levaram a Justiça a não abraçar esta bandeira. Mas segue o procurador em seus pensamentos, em outras considerações sobre o processo eleitoral:

“O TRE precisa urgentemente se capacitar para enfrentar o uso da internet para as eleições de 2010 e as campanhas difamatórias ou irregulares. Hoje, a computação permite imprimir de forma rápida e barata, e a cidade está cheia dessas gráficas.”

Pois é, amigos da blogosfera, como deve ser difícil abraçar a bandeira do controle do abuso do poder econômico, melhor acabar com a manifestação crítica de quem tem um blog, quem pode fazer facilmente um panfleto para denunciar tal prática. É mais barato e eficiente acabar com a livre expressão. Não havendo reclamações, não há problema. Nada diferente do que se faz nesse país há alguns séculos.