sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Sessão paraguaia de filme brasileiro americanizado

Eu vi “Tropa de elite”. Nem tentem me prender, esculachar, nada fiz. Apenas comprava no Centro material para fazer meu puxadinho. Ali, ao lado do Camelódromo. Parei numa birosca que começava a passar o filme em uma TV minúscula. Juntou gente. Grudei na tela, comprei uma latinha, e vi tudo.Estou pronto para fazer uma crítica de cinema antes da grande mídia. Problema deles que são filhos da pauta.

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Hollywood veio dar uma mãozinha para o cinema brasileiro conquistar, finalmente, seu Oscar. Os gringos colocaram sua melhor expertise: a boa grana, as violentas cenas de ação e uma história bem contada, com roteiro seguindo os chavões da indústria ianque. Se vamos botar o mão no boneco, os entendidos que se manifestem. Tenho lá minhas dúvidas. Há incômodos para eles no filme e aos meus critérios. Mas, acho até cômico, depois de tantas tentativas dos nossos cineastas mauricinhos narrarem suas “sensíveis” percepções, uma história baseada em livro de policial do Bope conquistar louros em Los Angeles.

E o filme é Bope, totalmente caveirão. Pode servir de estímulo em seus treinamentos. Levanta o moral da tropa. Desconfio desta realidade. Vende-se policiais incorruptíveis, o que fatos notórios contestam. Vemos cenas de exercícios de iniciação onde tentam eliminar os fracos e os corruptos. O cinema americano precisa de mocinhos e bandidos claros. Com o tempo aprendeu a flexibilizar o maniqueísmo. Humanizaram, no seu restrito e pior sentido, colocando cores mais reais. Neste filme, esta elite policial é violentíssima. Arrebenta, tortura barbaramente pessoas inocentes, como a esposa de um traficante, mas são eficientes ao extremo em seus propósitos. Fazendo sucesso no exterior o filme pode levar muitos de nossos policiais brasucas a fazerem bela carreira em Israel, Iraque ou outros aprazíveis recantos do planeta.

Inegável, lá está nossa realidade. Uma cadeia de reprodução. Policiais barbaramente violentos se alimentam de inescrupulosos traficantes, que precisam ser sustentados por uma classe média boçal, consumidora de drogas. Estes últimos são os que ficaram com o filme mais queimado. O núcleo “Malhação” é pobre. Faltaram a aulas no Tablado, mas fazem a platéia concluir que nossos branquinhos são os que mais fazem eme na sociedade. Alguns deles acham que pobres podem ser redimidos com esmolas, em uma dança, um teatrinho, uns desenhinhos, onde deveriam sacar que apenas uns óculos fazem toda a diferença. Vejam sobre as ongs no post da Kelly.

Há algo a pensar, sem dúvida. O filme lembra, logo em seu início, que existem 700 favelas no Rio, todas com milícias armadas. Impossível não refletir sobre o tamanho deste problema, suas conseqüências. Os liberais certamente irão colocar a culpa no indolente povo, que nada faz por mudar sua condição, que perverte a paisagem ao morar ao seu lado. Não querem pensar que fizeram isso ao longo de muitos anos, mantendo e reinventando uma política que exclui milhões, sem um projeto factível de solução. Estamos condenados a ver, depois de palmeiras, samba e carnaval, nossas pobres mazelas se transformarem em novo exotismo aos olhos do faturamento de Hollywood.

3 comentários:

joao paulo disse...

eu ainda nao vi... mas gostei do q vc escreveu. foda é pirataria...

Jurandir Paulo disse...

Valeu, João Paulo. Pois é, primeiro eu fiquei preocupado com a bilheteria, com tanta gente vendo o filme pirata, mas agora estou certo que o ele vai ser ainda mais visto. Conheço muita gente que viu e vai ver no cinema, outros não viram e estão doidos pro filme estrear. Se não é uma genial jogada de marketing, o acaso veio ajudar.

Kelly Christynna disse...

e estão vendendo o tropa 2!