sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

O fetiche da mercadoria e o futuro do papel

Li hoje na internet que a Amazon.com cresceu 35,5% em 2008, inclusive com aumento de 6.7% no último trimestre em relação a 2007. Não sei o que os jornalões dirão amanhã, já que suas páginas estão dedicadas apenas a falar sobre as empresas que perdem e demitem, que a crise vai nos pegar, cuidado!. Achei intrigante. A notícia na Abril tem uma justificativa para o desempenho que surpreendeu analistas: o seu treco leitor, o Kindle, que permite baixar livros online por preços bem abaixo dos impressos, possível tecnologia que salvará as árvores de virarem bibliotecas no futuro. A trosobinha eletrônica, que guarda até 200 livros, está esgotada. A empresa promete nova versão para fevereiro, mas até onde sei, não foi esse o motivo principal dos números da Amazon. A Sony tem sua versão de leitor de e-book desde 2006, sem grande sucesso.

No Globo de hoje, quinta-feira, matéria de capa do Segundo Caderno conta o que é o Kindle e discute seu futuro. Entrevista Chintia Portugal, relações-públicas da Amazon, que é enfática ao dizer que as próximas gerações lerão apenas em formato digital. Já os leitores do Globo, nos comentários da matéria, estão divididos. Entre os entusiastas que já usam o trem e os céticos, que gostam do cheiro do papel e querem manter sua biblioteca em pesadas estantes, nem que compradas à metro.

Uma primeira reflexão é pensar que há muito a indústria pensa em produzir este tipo de artefato, mas sem conseguir montar um bom plano de negócios. Em 1981, há quase 30 anos, a Knight-Ridder, uma das corporações que monopolizam o mercado de mídia americano, pensou que tinha aí uma grande oportunidade. Nomeou Roger Fidler, jornalista, designer, autor de Mediamorphosis, como gestor de um enorme projeto que iria acabar, não com os livros, mas com os jornais. Seria um tablet, um leitor que seria alimentado por cartões comprados em bancas. Claro, não deu certo. Queriam um projeto proprietário, não rolou. Isso em época em que a internet estava no maternal, e ainda jogávamos Atari.

Como fica esse futuro, que aparentemente teima em chegar?

Meus palpites:

Do meu ponto de vista proleta esta tecnologia seria o melhor dos mundos. Eu não quero continuar abarrotando meu pequeno apartamento com um monte de livros. Há muito adoraria viver em um lugar onde a educação fosse levada à sério, com bibliotecas eficientes que me emprestassem o que desejo ler. Podendo ter acesso de forma digital ao que desejo, com confortável leitura, é tudo o que quero. Há infinitas obras que não podem ser impressas ou reimpressas por custos de demanda. Quantos novos autores não poderiam alcançar seu público? Quantas obras raras não poderiam ficar disponíveis? O custo de um livro implica papel, tiragem mínima. A obra digital gasta apenas em digitalização. Imaginem as maiores bibliotecas do mundo disponíveis. Imaginem os estados investindo no lugar de prédios para bibliotecas para guardar papel.

Temo que o capitalismo ainda levará um tempo para montar seu “business plan”, como dizem os mauricinhos que gostam do inglês para explicar o mundo. Terão que vencer os mesmos desafios que a indústria fonográfica. Enfrentarão a pirataria. Como?

Mas, fundamentalmente, o problema é que eles não querem nos dar o que desejamos, apenas o que estamos dispostos a pagar.

Acho que ainda vai demorar.

Em tempo: Já que estamos falando de mídia, no próximo dia 4 de fevereiro o 1º Juizado Especial Federal de São Gonçalo emitirá sentença contra Graça Rocha, da rádio comunitária Novo Ar, por infração ao artigo 70 da lei 4117/62: “Constitui crime punível com a pena de detenção de um a dois anos, aumentada da metade se houver dano a terceiro, a instalação ou utilização de telecomunicações, sem observância do disposto nesta Lei e nos regulamentos”.

A lei determina pesadas restrições para quem deseja usar de telecomunicações, não importa com quais objetivos. Infelizmente Graça não ganhou uma concessão de rádio, tal qual muitos empresários e bispos de igrejas ganharam por servirem aos interesses das elites que ocuparam o estado brasileiro. Estado que usou tal direito como mera mercadoria em troca de interesses.

Graça apenas quer ir ao ar em sua comunidade. E nós, do povo, que pagamos nossos impostos, que alimentamos o estado e sua justiça, queremos ouvi-la. A ela damos este direito.

Todo o nosso apoio a sua rádio!

2 comentários:

Paulo disse...

Estimado Jurandir. Estou contigo e não abro. As grandes editoras só publicam o que lhes interessam, sempre ignorando o que queremos ler. Para dar um exemplo: sabe de quando é a última edição completa d'O Capital editada no Brasil? Tem muitos anos, desde que a Record comprou a Civilização Brasileira. Hoje só é possivel acessar esta importante obra por meio digital e, o mais importante, totalmente grátis. Hoje qualquer um pode baixar programas de leitura na internet, inclusive os clássicos da literatura, filosofia e artes nacional e mundial.

Anônimo disse...

Poxa, a tempos não lia uma matéria tão interessante e muito, muito bem escrita!
Obrigada,
Branca.