quarta-feira, 22 de abril de 2009

No campo, radicais são a UDR e a ANJ

A Associação Nacional dos Jornais (ANJ) divulgou nota sobre o conflito no último sábado, no Pará, publicada em vários de seus veículos. Em certo momento, diz o texto: “os integrantes do MST atentaram contra o livre exercício do jornalismo, aterrorizando profissionais que cobriam o evento com objetivo de informar à sociedade”.

Como assim livre exercício? Objetivo de informar a sociedade? Haja desfaçatez. Os jornalistas presentes usaram avião da Agropecuária Santa Bárbara, estiveram o tempo todo ao lado de seguranças da fazenda de Daniel Dantas, inclusive quando estes abriram fogo contra os manifestantes, onde nove foram baleados. Que isenção é essa, que nem ao menos tem o critério de ouvir o outro lado? Somente na segunda, em nota do MST, pudemos saber detalhes importantes do episódio, com fatos e nomes, que desmentem versão anterior da imprensa, onde ela dizia que os jornalistas foram usados como reféns, obrigados a caminhar na estrada tal qual escudos humanos. O cinegrafista em nenhum momento capturou imagens que comprovam isso. A nota da ANJ chega ao cúmulo de parcialidade ao afirmar que “felizmente, ninguém saiu fisicamente ferido dessa ação criminosa”. Quer dizer, os nove baleados, alguns gravemente, não contam para a sociedade que a ANJ diz representar. É uma confissão.

Para entender a clara opção da mídia, em constante fabricação do medo ao MST, sugiro a leitura de texto do professor Gilson Caroni Filho, publicado originalmente no Observatório da Imprensa e repetido no Vermelho. Nele, um sério alerta: a UDR e a CNA, que representam os interesses dos donos de terras, planejam a radicalização política, visando 2010, inclusive com ações de sabotagem produtiva, promovendo o desabastecimento. Algo já conhecido da caixa de maldades das reações contra governos populares, de Allende a Chávez. É o que se pode entender das declarações recentes de seus representantes, e que não tiveram a merecida atenção da mídia, preocupada na constante repetição dos mantras neoliberais que afirmam existir uma “modernidade rural” com o agronegócio, sem espaço atual para um reforma agrária. Diz o professor Caroni:


Há um toque de ironia que não deve ser esquecido. No Brasil, ainda são os pequenos produtores sem terra (ou com muito pouca) que abastecem o deficitário mercado de alimentos, ativador de inflação, enquanto, até bem recentemente, os créditos, financiamentos, subsídios e favores do Estado eram monopolizados pela grande propriedade. A contrapartida perversa do repasse de recursos do setor público para o privado são os conflitos do Pará ao Rio Grande do Sul e os surtos de violência entre a UDR de um lado e os sem-terra de outro.

A solução das classes dominantes para resolver o problema agrário sempre foi a redução dramática da população rural, empurrada para as grandes metrópoles em ritmo que não cessava de se superar ano após ano. Nesse quadro, o MST, movimento de maior expressividade na América Latina, logrou estabelecer o contraponto necessário.




A questão agrária no Brasil ainda é um problema grave de erro de gestão capitalista. São seus atrasados representantes os principais responsáveis pelo inchaço das cidades, com a violência urbana. Representam a mais arcaica e perversa herança colonial, escravagista, e querem posar agora de modernos gestores do “agrobusiness”. Tomem vergonha, e paguem por seus crimes.

4 comentários:

Luciano Bitencourt disse...

Caro Jurandir,
Sou assinante do seu blog, pois gosto do seus textos, mas farei algumas considerações a respeito do post acima em razão de conhecer de perto o tema que você enxerga de outra maneira.

Antes de mais nada repugno totalmente a violência.

1 - É hilário ver alguém dar tamanho poder à UDR como você colocou. Entre os próprios integrantes do agronegócio a UDR é motivo de chacota, seus dirigentes são vistos como retrógados, não são convidados para os mais importantes eventos do setor e não devem ter 100 associados na entidade.
2 - A CNA, sim, é a mais forte representante do agronegócio - a exemplo da UDR, as demais entidades vivem a míngua -
porque recebe parte de um imposto rural pago pelo produtor (do sitiante ao mega). Quanto às outras lideranças do setor
é notável a falência administrativa, política e patrimonial de grande parte delas/deles (Faça uma pesquisa e constatarás).
3 - E é justamente a situação de bancarrota dos "latifundiários" que me faz não compreender como eles poderiam cessar a produção. Porque, para quem está quebrado, o prejuízo que um boicote desses acarretaria é o mesmo que dar um tiro na cabeça (coisa que muitos já estão prestes a fazer).
4 - E tem outra: você acha que o dono de terras produz hoje? Pois é, engano seu. De São Paulo ao Sul do Tocantins os donos de terras arredaram tudo para a cana-de-açúcar. Portanto, eles não podem frear a produção. Inclusive, foi
isso que levou os pequenos produtores a sustentar o abastecimento de alimentos no Brasil como você bem disse.
5 - Só para a sua informação, A fazenda Santa Bárbara pertence a um grupo cujos sócios são além do banqueiro Daniel Dantas, um dos filhos do presidente Lula. Duvida? Vai lá e dê uma volta na região, entreviste gente humilde, os ribeirinhos, sertanejos, peões, enfim, gente da terra. Não é possível que uma população inteira - que vota inclusive no PT - esteja mentindo ou envolvida numa utopia coletiva.
6 - Para encerrar, quero esclarecer que não defendo o agronegócio brasileiro, muito pelo contrário. O setor vive uma falência sem precedentes em virtude do fim da era extrativista. O produtor rural é realmente financiado pelo Governo, pois de outra forma quebraria. A conta não fecha para agricultores, pecuaristas e indústria. Estão todos abarrotados de dívidas e presos em financiamentos. Os números extraordinários divulgados pelo agronegócio já cairam no descrédito da imprensa séria, uma vez que são irreais e sem embasamento (salvo o de raros orgãos como o Ministério da Agricultura, Esalq, USP...).

No entanto, fiz essas ressalvas pois considero a discussão muito pertintente em razão de muitos integrantes do PT, PSB, PC do B e outros estarem investindo no campo (só que não na pele do MST, mas de proprietário). Procure saber quem comprou a fazenda do maior produtor de gado nelore de São Paulo e quem é sócio na BrasilEcoDiesel - o maior produtor de biodiesel do país. Nesse sentido acredito que a crítica deveria ser realizada com mais aprofundamento.

Jurandir Paulo disse...

Luciano,

Primeiro, parabéns por levar uma discordância a um nível mais alto, onde é possível haver um debate de idéias.

Eu não desejo dar à UDR ou mesmo à CNA uma importância maior que a verdadeira, mas o fato é que para a mídia elas representam o pensamento do setor ruralista, suas lideranças são ouvidas o tempo todo e seus suspiros ampliados. A senadora Kátia Abreu, ex-musa do fim da CPMF, atualmente é vedete na presidência da CNA. É quem começou agora com a ameaça de desabastecimento, tese engrossada por Luiz Antônio Nabhan, da UDR. Bravata? Talvez. Mas creio que pecuaristas ainda têm bois a esconder, tal como fizeram no governo Sarney. Ou produtores de arroz poderiam aqui fazer o que os da Venezuela tentaram recentemente contra o governo Chávez. Não é nada de novo, trata-se de tática bem conhecida destes setores.

Não tenho maiores informações sobre o filho do Lula como sócio de Dantas naquela fazenda, ou sobre investimentos de integrantes de partidos do governo em negócios do biodiesel. Mas fique certo de que se existir uma única ponta, um fio de informação, nossa mídia se ocupará em breve de ampliar como escândalo. Se constar então em um dossiê de arapongas, não importa sua credibilidade, fique certo que o Mainardi e a Veja darão o maior destaque.

Vamos esperar para ver.

Yvy disse...

Jurandir,li e aprendi um pouco mais. Descobri que blogosfera é cultura.


Abrs.

Anônimo disse...

E depois querem que a os jornalões tenham redibilidade. As mentiras são associação maior. Nem vou falar de ideologias.