terça-feira, 13 de novembro de 2007

Bate-boca nonagenário




A Revolução Soviética ainda causa reação e incompreensões diversas. Em post no site O Biscoito fino e a massa, coloquei uma parte de minha visão e recebi resposta do leitor blogueiro Adriano. Repliquei e acabei falando mais sobre a revolução do que estava imaginando. E peguei gosto, quero mais debate.

Começou com este comentário meu:

Idelber, ótimo post. E lembrou falha minha por ainda não ter comentado o assunto em meu blog. Mas o farei. Tenho relido John Reed, um dos melhores relatos sobre a revolução russa, que deu em um filme, infelizmente sem a mesma qualidade. Como foram ricas as discussões! Quanta paciência dos bolcheviques com o pensamento burguês! Mesmo com o Palácio de Inverno tomado, com o poder já em suas mãos, as assembléias eram ricas em debate e contavam com ferrenha oposição de mencheviques, SRs, cadetes, social-democratas de direita, desejosos de um caminho de conciliação. Durante muito tempo a revolução contou com inimigos declarados e alguns não tanto. As anos seguintes foram igualmente riquíssimos. Impossível não reconhecer a vitória do socialismo que permitiu aquele país, em poucas décadas, deixar de ser um país agrário em uma das maiores potências industriais do planeta, responsável principal pela derrota do nazismo, mesmo que a máquina de propaganda ocidental tente o tempo todo esconder esta verdade. O discurso de direita, impedido de maiores lógicas em seus argumentos, passou a se fixar na mesma tecla: a barbárie cometida. A maldade no argumento é evidente. Já acontecia na contra-revolução em 1917, John Reed relata no livro. Não deixou de ser tentada depois, até hoje servindo como principal argumento da direita e, também, de herdeiros dos mencheviques. Estes deveriam cobrar de George Washington suas culpas. Afinal, o cara virou nota, mesmo tendo maltratado tantos soldadinhos ingleses.

Jurandir em novembro 12, 2007 10:59 AM

Adriano respondeu:

Senhores,

O paralelo entre George Washington e os bolcheviques é totalmente sem cabimento. Se a "direita" critica o socialismo soviético não é por ele ter matado nazistas ou quaisquer pessoas de outros povos com que a Rússia pudesse estar em guerra. O grande problema é que pelo menos duas dezenas de milhões de russos morreram na mão... de russos; isso é sem paralelo na história, a não ser que se fala da quase centena de milhões de chineses que morreram em quatro anos em decorrência da Grande Fome.
Em relação ao outro argumento de Jurandir, é preciso repetir que a economia russa estava em pleno desenvolvimento já nos últimos anos do atrasado sistema czarista. Fica, assim, posta em dúvida se a transição do "feudalismo" (ou agrarismo) se daria necessariamente, que é o que defendo, ou se se deveu ao totalitarismo socialista.
E, para defender Marx, também é preciso dizer que a revolução viria da mão dos trabalhadores, a partir da tomada de consciência do proletariado, que parece, no fundo, ter sido manipulado por líderes pequeno-burgueses como Lênin e Tróstsky.
Isso tudo sem contar ainda que a Rússia leninista só sobreviveu com a NEP, que foi uma espécie de estado de exceção... capitalista.


Adriano em novembro 12, 2007 5:25 PM

Repliquei assim:

Caro Adriano,

Sua acusação é conhecida. Foram vinte milhões de russos vítimas do seu governo? Eu o desafio a apresentar fontes diferentes de William Hearst, Robert Conquest e Aleksandr Solzhenitsyn. Para não me alongar aqui, sugiro um link.

O primeiro foi o grande magnata da imprensa marrom americana que inspirou o filme Cidadão Kane, um inimigo declarado do regime soviético, amigo de hitler nos anos 30. O segundo foi desmoralizado pelo The Guardian, que o acusou ser homem do IRD (Information Research Departement, do serviço secreto inglês, antes Communist Information Departement), o último, depois que a cada palestra aumentava o número de vítimas do regime soviético e reinventava histórias, começou a ser esquecido por seus próprios patrocinadores, caindo no ostracismo.

Todas estas mentiras caíram por terra quando em 1989, no governo Gorbachov, um grupo de historiadores russos, como V. N. Zemskov, A. N. Dougin e O. V. Xlevjik (pesquise no Google) teve acesso pela primeira vez a vários documentos do sistema corretivo soviético até a data de 1953, reunindo o resultado em 9 mil páginas que desmentem as mentiras até então inventadas sobre aquele período.

Acusar a revolução soviética de ser uma fábrica de mortos é nítida manobra diversionista. Foi o capitalismo, e ainda é, um dos maiores fabricantes de vítimas e de barbárie em toda a história da humanidade. Fique só nas ações dos EUA que já terá números e relatos impressionantes. Comece com a expansão americana chegando ao Caribe para destronar o decadente império Espanhol e ganhar de presente as Filipinas, caminho natural para o rico Oriente, seus recursos, seus mercados. A selvageria contra o indefeso povo filipino está registrada na história como um dos seus episódios mais cruéis.

Seu argumento de que nos últimos anos do czarismo havia pleno desenvolvimento da economia é absurdo. A fome e a miséria haviam aumentado substancialmente, inclusive com os efeitos da primeira guerra, motivo inclusive de ser a paz uma das principais bandeiras dos bolcheviques.

Massas manipuladas por líderes pequeno-burgueses? Nunca na história se discutiu e se deliberou tanto e por muitos. Que sistema democrático no mundo teve experiência de dar voz e poder a soldados, operários, camponeses como naquele? As democracias burguesas no mundo foram mais democráticas? Que isso? Se Bush não tivesse roubado não seria eleito.

Ah, sim, a NEP foi uma medida capitalista, o que demonstra o poderio do socialismo, que é o de ser capaz de ter jogo de cintura para fazer o mais certo, na hora mais exata. Ou, na melhor linguagem de Lênin: “É preciso voltar um passo atrás para depois avançar dois à frente". Quantas vezes o capitalismo ousou isso?


Bom, é assunto ainda para muitos posts.

3 comentários:

Anônimo disse...

Como endireitar um esquerdista

Frei Betto *

Adital -
Ser de esquerda é, desde que essa classificação surgiu na Revolução Francesa, optar pelos pobres, indignar-se frente à exclusão social, inconformar-se com toda forma de injustiça ou, como dizia Bobbio, considerar aberração a desigualdade social.
Ser de direita é tolerar injustiças, considerar os imperativos do mercado acima dos direitos humanos, encarar a pobreza como nódoa incurável, julgar que existem pessoas e povos intrinsecamente superiores a outros.
Ser esquerdista - patologia diagnosticada por Lênin como "doença infantil do comunismo" - é ficar contra o poder burguês até fazer parte dele. O esquerdista é um fundamentalista em causa própria. Encarna todos os esquemas religiosos próprios dos fundamentalistas da fé. Enche a boca de dogmas e venera um líder. Se o líder espirra, ele aplaude; se chora, ele entristece; se muda de opinião, ele rapidinho analisa a conjuntura para tentar demonstrar que na atual correlação de forças...
O esquerdista adora as categorias acadêmicas da esquerda, mas iguala-se ao general Figueiredo num ponto: não suporta cheiro de povo. Para ele, povo é aquele substantivo abstrato que só lhe parece concreto na hora de cabalar votos. Então o esquerdista se acerca dos pobres, não preocupado com a situação deles, e sim com um único intuito: angariar votos para si e/ou sua corriola. Passadas as eleições, adeus trouxas, e até o próximo pleito!
Como o esquerdista não tem princípios, apenas interesses, nada mais fácil do que endireitá-lo. Dê-lhe um bom emprego. Não pode ser trabalho, isso que obriga o comum dos mortais a ganhar o pão com sangue, suor e lágrimas. Tem que ser um desses empregos que pagam bom salário e concedem mais direitos que exige deveres. Sobretudo se for no poder público. Pode ser também na iniciativa privada. O importante é que o esquerdista se sinta aquinhoado com um significativo aumento de sua renda pessoal.
Isso acontece quando ele é eleito ou nomeado para uma função pública ou assume cargo de chefia numa empresa particular. Imediatamente abaixa a guarda. Nem faz autocrítica. Simplesmente o cheiro do dinheiro, combinado com a função de poder, produz a imbatível alquimia capaz de virar a cabeça do mais retórico dos revolucionários.
Bom salário, função de chefia, mordomias, eis os ingredientes para inebriar o esquerdista em seu itinerário rumo à direita envergonhada - a que age como tal mas não se assume. Logo, o esquerdista muda de amizades e caprichos. Troca a cachaça pelo vinho importado, a cerveja pelo uísque escocês, o apartamento pelo condomínio fechado, as rodas de bar pelas recepções e festas suntuosas.
Se um companheiro dos velhos tempos o procura, ele despista, desconversa, delega o caso à secretária, e à boca pequena se queixa do "chato". Agora todos os seus passos são movidos, com precisão cirúrgica, rumo à escalada do poder. Adora conviver com gente importante, empresários, ricaços, latifundiários. Delicia-se com seus agrados e presentes. Sua maior desgraça seria voltar ao que era, desprovido de afagos e salamaleques, cidadão comum em luta pela sobrevivência.
Adeus ideais, utopias, sonhos! Viva o pragmatismo, a política de resultados, a cooptação, as maracutaias operadas com esperteza (embora ocorram acidentes de percurso. Neste caso, o esquerdista conta com o pronto socorro de seus pares: o silêncio obsequioso, o faz de conta de que nada houve, hoje foi você, amanhã pode ser eu...).
Lembrei-me dessa caracterização porque, dias atrás, encontrei num evento um antigo companheiro de movimentos populares, cúmplice na luta contra a ditadura. Perguntou se eu ainda mexia com essa "gente da periferia". E pontificou: "Que burrice a sua largar o governo. Lá você poderia fazer muito mais por esse povo."
Tive vontade de rir diante daquele companheiro que, outrora, faria um Che Guevara sentir-se um pequeno-burguês, tamanho o seu aguerrido fervor revolucionário. Contive-me, para não ser indelicado com aquela figura ridícula, cabelos engomados, trajes finos, sapatos de calçar anjos. Apenas respondi: "Tornei-me reacionário, fiel aos meus antigos princípios. E prefiro correr o risco de errar com os pobres do que ter a pretensão de acertar sem eles."
[Autor de "Calendário do Poder" (Rocco), entre outros livros].

* Frei dominicano. Escritor.

Jurandir Paulo disse...

Caro anônimo, você aqui coloca um texto apócrifo como se fosse de Frei Betto. Seu teor é lamentável, nunca teria sido escrito por um padre identificado com a teologia da libertação.

Segue um verdadeiro, compare e reflita:

Dez conselhos para os militantes de esquerda

Frei Betto

1. Mantenha viva a indignação.

Verifique periodicamente se você é mesmo de esquerda. Adote o critério de Norberto Bobbio: a direita considera a desigualdade social tão natural quanto a diferença entre o dia e a noite. A esquerda a encara como uma aberração a ser erradicada.

Cuidado: você pode estar contaminado pelo vírus social-democrata, cujos principais sintomas são usar métodos de direita para obter conquistas de esquerda e, em caso de conflito, desagradar aos pequenos para não ficar mal com os grandes.

2. A cabeça pensa onde os pés pisam.

Não dá para ser de esquerda sem "sujar" os sapatos lá onde o povo vive, luta, sofre, alegra-se e celebra suas crenças e vitórias. Teoria sem prática é fazer o jogo da direita.

3. Não se envergonhe de acreditar no socialismo.

O escândalo da Inquisição não faz os cristãos abandonarem os valores e as propostas do Evangelho. Do mesmo modo, o fracasso do socialismo no Leste europeu não deve induzi-lo a descartar o socialismo do horizonte da história humana.

O capitalismo, vigente há 200 anos, fracassou para a maioria da população mundial. Hoje, somos 6 bilhões de habitantes. Segundo o Banco Mundial, 2,8 bilhões sobrevivem com menos de US$ 2 por dia. E 1,2 bilhão, com menos de US$ 1 por dia. A globalização da miséria só não é maior graças ao socialismo chinês que, malgrado seus erros, assegura alimentação, saúde e educação a 1,2 bilhão de pessoas.

4. Seja crítico sem perder a autocrítica.

Muitos militantes de esquerda mudam de lado quando começam a catar piolho em cabeça de alfinete. Preteridos do poder, tornam-se amargos e acusam os seus companheiros (as) de erros e vacilações. Como diz Jesus, vêem o cisco no olho do outro, mas não a trave no próprio olho. Nem se engajam para melhorar as coisas. Ficam como meros espectadores e juízes e, aos poucos, são cooptados pelo sistema.

Autocrítica não é só admitir os próprios erros. É admitir ser criticado pelos (as) companheiros (as).

5. Saiba a diferença entre militante e "militonto".

"Militonto" é aquele que se gaba de estar em tudo, participar de todos os eventos e movimentos, atuar em todas as frentes. Sua linguagem é repleta de chavões e os efeitos de sua ação são superficiais.

O militante aprofunda seus vínculos com o povo, estuda, reflete, medita; qualifica-se numa determinada forma e área de atuação ou atividade, valoriza os vínculos orgânicos e os projetos comunitários.

6. Seja rigoroso na ética da militância.

A esquerda age por princípios. A direita, por interesses. Um militante de esquerda pode perder tudo: a liberdade, o emprego, a vida. Menos a moral. Ao desmoralizar-se, desmoraliza a causa que defende e encarna. Presta um inestimável serviço à direita.

Há pelegos disfarçados de militante de esquerda. É o sujeito que se engaja visando, em primeiro lugar, sua ascensão ao poder. Em nome de uma causa coletiva, busca primeiro seu interesse pessoal.

O verdadeiro militante, como Jesus, Gandhi, Che Guevara, é um servidor, disposto a dar a própria vida para que outros tenham vida. Não se sente humilhado por não estar no poder, ou orgulhoso ao estar. Ele não se confunde com a função que ocupa.

7. Alimente-se na tradição da esquerda.

É preciso oração para cultivar a fé, carinho para nutrir o amor do casal, “voltar às fontes" para manter acesa a mística da militância. Conheça a história da esquerda, leia (auto)biografias, como o "Diário do Che na Bolívia", e romances como "A Mãe", de Gorki, ou "As Vinhas de Ira", de Steinbeck.

8. Prefira o risco de errar com os pobres a ter a pretensão de acertar sem eles.

Conviver com os pobres não é fácil. Primeiro, há a tendência de idealizá-los. Depois, descobre-se que entre eles há os mesmos vícios encontrados nas demais classes sociais. Eles não são melhores nem piores que os demais seres humanos. A diferença é que são pobres, ou seja, pessoas privadas injusta e involuntariamente dos bens essenciais à vida digna. Por isso, estamos ao lado deles. Por uma questão de justiça.

Um militante de esquerda jamais negocia os direitos dos pobres e sabe aprender com eles.

9. Defenda sempre o oprimido, ainda que, aparentemente, ele não tenha razão.

São tantos os sofrimentos dos pobres do mundo que não se pode esperar deles atitudes que nem sempre aparecem na vida daqueles que tiveram uma educação refinada.

Em todos os setores da sociedade há corruptos e bandidos. A diferença é que, na elite, a corrupção se faz com a proteção da lei e os bandidos são defendidos por mecanismos econômicos sofisticados, que permitem que um especulador leve uma nação inteira à penúria.

A vida é o dom maior de Deus. A existência da pobreza clama aos céus. Não espere jamais ser compreendido por quem favorece a opressão dos pobres.

10. Faça da oração um antídoto contra a alienação.

Orar é deixar-se questionar pelo Espírito de Deus. Muitas vezes, deixamos de rezar para não ouvir o apelo divino que exige a nossa conversão, isto é, a mudança de rumo na vida. Falamos como militantes e vivemos como burgueses, acomodados ou na cômoda posição de juízes de quem luta.

Orar é permitir que Deus subverta a nossa existência, ensinando-nos a amar, assim como Jesus amava, libertadoramente.

Fonte: ADITAL
http://br.geocities.com/mcrost10/fb04.htm

ADILSON SANTOS disse...

O CAPITALISMO E SUAS DERIVAÇÕES FOI , E É RESPONSÁVEL PELA PRODUÇÃO DE MISERÁVEIS , PELA FOME DE BILHÕES , PELAS INJUSTIÇAS E PRIVILÉGIOS DE UMA MINORIA FARISAICA E TRAIÇOEIRA QUE SE APROPRIOU PELA FORÇA DOS BENS E DA RIQUEZA PLANETÁRIA E AS NEGOCIA PARA O RESTANTE DA POPULAÇÃO MEDIANTE PAGAMENTO .

A MOLA MESTRE DO CAPITALISMO É A DESIGUALDADE SOCIAL E SEU DEUS É O LUCRO .

MANTENDO-SE O STATUS QUO VIGENTE , ESTE SISTEMA DIABÓLICO SE PERPETUA EM SEU CIRCULO VICIOSO :

PRODUZ MISÉRIA - OS MISERÁVEIS TRABALHAM PARA SOBREVIVER - OS CAPITALISTAS LUCRAM - 0 SISTEMA ANDA - PRODUZ MAIS MISÉRIA !!

É UM MOTO CONTINUO PERVERSO .

O CAPITALISMO É A NEGAÇÃO COSMICA DA IGUALDADE ,

É A NEGAÇÃO DA SOLIDARIEDADE ,

É A ETERNIZAÇÃO DO EGOISMO , É A

ACEITAÇÃO DA INJUSTIÇA COMO MODO DE VIDA ,

É A CONFIRMAÇÃO EXPLICITA DE SERES INFERIORES PARA COM SUA INFERIORIDADE

E FINALMENTE É A PRATICA LEGALIZADA E OFICIAL DA EXTORSÃO , DO ROUBO , DO SAQUE, DA BARBARIE , DO GENOCÍDIO E DA TRAIÇÃO DO HOMEM PELO HOMEM !!