quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Esculacho no quintal dos outros é festim


Li na Folha o desabafo de Luciano Hulk após ser assaltado em São Paulo, quando roubaram seu relógio de R$ 48 mil. Disse ele revoltado: “Onde está a polícia? Onde está a elite da tropa? Chamem o capitão Nascimento!”. Pronto. As elites têm um herói. Mais, é um novo modelo. Confesso que nunca entendi o projeto de segurança pública dos representantes dos mais abastados. O Alckmin vivia dizendo que o negócio era simples, bastava fazer mais presídios, contratar mais policiais. Mas agora o discurso deve mudar. No caso do relógio roubado, basta um capitão Nascimento subir a favela, colocar no saco alguns moradores, torturar até conseguir informações, que logo alguém dedura o ladrão. Simples, e o Luciano ficaria contente com seu relógio de volta.

Fiquei matutando esta confessa barbárie. Impossível não associar à última capa da Veja, esta revista que pretende ser porta-voz desta elite, suas preocupações. Para ela, o importante neste momento é desmascarar a farsa da imagem de Che Guevara. Juntou alguns notórios inimigos de Fidel, um agente da CIA para que dissessem que Che foi um bárbaro, um assassino cruel, além de mal cheiroso. Surpresa se tal time comentasse outras coisas, como a atabalhoada invasão da Baía dos Porcos, ou a operação NorthWoods, imaginada pela CIA. Não. Tudo o que dizem é que o revolucionário Che Guevara era violento.

Quer dizer, para fazer uma revolução não podemos dar tiros, temos que tratar bem os inimigos. A violência só é justa quando precisamos ter de volta um relógio roubado.

Outra coisa: um leitor anônimo deste blog deixou registrada uma ótima contribuição para análise. Em 1997 a Veja fazia uma isenta reportagem sobre Che Guevara, de autoria de Dorrit Harazim, esposa de Elio Gaspari. Pergunto: mudou a Veja? Mudou Che? Há uma marcha à direita no pais? Gostaria de opiniões.

E mais outra: Antonio Gabriel Haddad é um especialista em Cuba. Desmonta a "reportagem" da Veja em cada letra. Leia no blog do André Lux, o Tudo em Cima.

Na imagem acima, pintura de John Trumbull, “A morte do general Warren na batalha de Bunker Hill”. Momento não muito glorioso para os revolucionários de George Washington. Mesmo assim, detonaram mil soldadinhos vermelhos (não, não eram comunistas). E que eu saiba, não entraram para a história como bárbaros e violentos.

2 comentários:

Veruska Souto Maior disse...

Post perfeito, Jurandir. E o Luciano, só para completar, sequer registrou um boletim de ocorrência na delegacia porque "estava com viagem marcada para New York"...

Coelho disse...

Muito bom seu comentário. Quando a dona da Daslu vai para a cadeia a zelite gritam: "Coitadinha ela cria tantos empregos...". Quando o camelô vende produto pirata, é pau neles